tripes em soja

Tripes em soja: efeitos de cultivar e programas de manejo fitossanitário  

Eduardo Engel  • Eng. Agr. Mestre em Entomologia  
Mauricio P. B. Pasini  • Eng. Agr. Doutor em Agronomia  
Renan de Souza de Figueiredo  • Acadêmico do curso de Agronomia - Unicruz 

Nas últimas safras, os produtores vêm enfrentando diversos problemas com insetos que, em sua história recente, não eram considerados de grande relevância econômica. Dentre estes insetos, destacam-se a cigarrinha-do-milho, ácaros e tripes. Dado o cenário de disponibilidade hídrica e nutricional adequada para os cultivos, muitos problemas ocasionados por estes insetos ficaram mascarados pela boa produtividade obtida há alguns anos.  

No entanto, cenários como o atual, de escassez hídrica e elevadas temperaturas propiciaram o crescimento populacional desenfreado de diferentes espécies de insetos-praga, como os anteriormente mencionados. Durante esta safra de soja, tripes foi o grupo de espécies que está repercutindo em maior escala. Isso ocorre devido às condições meteorológicas citadas, bem como o potencial biótico da espécie, fazendo com que ocorram surtos populacionais em um prazo curtíssimo (alguns dias).  

O complexo de tripes que ocorrem em soja no Rio Grande do Sul, atualmente envolve dois gêneros, a saber, Caliothrips spp., e Frankliniella spp. (Figura 1). Estes gêneros diferenciam-se não apenas pelas suas características morfológicas, mas também quanto ao seu comportamento. Enquanto Caliothrips spp., explora folhas já desenvolvidas e, de preferência, no dossel inferior da planta de soja; Frankliniella spp., prefere explorar tecidos meristemáticos da planta e, durante a fase reprodutiva, há ocorrência de altas densidades populacionais em flores. Desta forma, Frankliniella spp., ocorre em maior abundância no dossel superior das plantas. Ambos os gêneros geram o sintoma típico de “prateamento” foliar, devido ao comportamento alimentar. Além disso, podem ocasionar enrugamento de folíolos novos e necrosamento foliar quando ocorrem em altas densidades. Em geral, sua presença em plantas reduz diretamente o potencial fotossintético dos  tecidos, afetando diferentes componentes de rendimento da planta, tais como: pegamento floral, vagens, grãos e peso de grãos.  

Figura 1. (A) Caliothrips spp. e (B) Frankliniella spp. em soja. 

Caliothrips spp.
Frankliniella spp. em soja

A condição ambiental desta safra, adequada para o desenvolvimento de tripes, somada ao cenário econômico de altos custos de insumos, faz com que os manejos adotados devam ser cirúrgicos em termos de eficiência e rentabilidade. É neste contexto que o alinhamento do conhecimento existente sobre estes insetos, com as tecnologias disponíveis no mercado, deve ser preconizado para a obtenção dos melhores resultados possíveis no manejo destes insetos.  

Aqui, buscamos compartilhar alguns resultados encontrados referentes à densidade populacional de tripes em experimentos realizados visando comparar diferentes programas de manejo fitossanitários em diversas cultivares de soja e épocas de aplicação. Os experimentos foram conduzidos na safra de 2020, no município de Cruz Alta. Nestes, os cultivares BMX Zeus IPRO, BMX Compacta IPRO, BMX Ativa RR e DM 5958 IPRO foram submetidos a diferentes manejos fitossanitários (Tabela 1).

Tabela 1. Programas de manejo fitossanitário (tratamentos), princípios ativos adotados
e estádio da aplicação dos mesmos.

 manejo fitossanitário

Considerando todas as cultivares avaliadas, observamos que houve variação entre os programas de manejo fitossanitários avaliados (Figura 1A). De forma geral, o manejo A (sem TS e nenhuma intervenção em parte aérea) foi o tratamento com maior densidade populacional de tripes. Este foi seguido do manejo B (TS + duas intervenções em parte aérea). Em sequência, o manejo C (TS + três intervenções) apresentou densidade populacional inferior aos manejos A e B. Com densidade populacional ainda mais inferior, vêm os manejos D (TS + três intervenções) e E (TS + quatro intervenções). Destaca-se que este padrão foi observado em todos os estádios fenológicos avaliados, sugerindo efeito direto do programa de manejo adotado. Para corroborar o efeito observado do programa de manejo, observamos a variação destes em cada cultivar avaliada (Figura 1B). Neste, verificamos que os manejos fitossanitários apresentaram o mesmo padrão em diferentes cultivares de soja, indicando que impactaram em diferentes genótipos de soja de forma igual. 

Figura 2.
(A)
Boxplot da densidade populacional de tripes entre diferentes manejos fitossanitários adotados em função do estádio fenológico considerando todas as cultivares avaliadas.
(B) Boxplot da densidade populacional de tripes entre diferentes manejos fitossanitários adotados em função do cultivar de soja considerando todos os estádios fenológicos avaliados.  

Boxplot

A)  Manejos/estádio fenológico considerando todos os cultivares avaliados. 

B)  Manejos/cultivar de soja considerando todos os estádios fenológicos avaliados. 

Quando consideramos somente a variação entre cultivares de soja, na ausência de qualquer manejo fitossanitário, notamos que, dentre os cultivares avaliados, BMX Ativa RR teve a menor densidade populacional (Figura 3). Dentre as cultivares avaliadas, BMX Ativa RR é a mais antiga disponível no mercado e tende a ter maior área foliar como uma característica biométrica. Outro ponto pode estar relacionado à sua tolerância em relação aos demais genótipos avaliados. Desta forma, BMX Ativa RR pode apresentar maior tolerância ou menor preferência de tripes em relação aos demais cultivares avaliados.

Figura 3. Boxplot da densidade populacional de tripes em função do genótipo de soja na ausência de qualquer manejo fitossanitário.

Boxplot

De forma geral, observa-se que manejos com maior número de intervenções em parte aérea (D e E) utilizando princípios ativos de choque (piretróides, metomil, carbosulfano, profenofós e acefato) mantiveram a densidade populacional de tripes baixa em todos os estádios e cultivares avaliados. Além disso, verificou-se que estes manejos obtiveram maiores patamares produtivos. Também foi observada variação significativa entre cultivares de soja quanto à produtividade final (Tabela 2).  

Tabela 2. Produtividade em sacas por hectare submetidas a diferentes manejos fitossanitários. Cruz Alta, RS. 2020. Coeficiente de variação: 12.27%.

produtividade

Manejo A – Sem manejo fitossanitário. Manejo B – Tratamento de Sementes (Fipronil + Neonicotinóide); V8 – Benzoluiureia; R5.1 – Associação de Piretróide e Neonicotinóide. Manejo C – Tratamento de Sementes (Fipronil + Neonicotinóide); V3 – Benzoiluréia; V8 – Diamida; R5.1 – Associação de Piretróide e Neonicotinóide. Manejo D – Tratamento de Sementes (Fipronil + Neonicotinóide); V3 – Metomil; V8 – Associação de Piretróide e Neonicotinóide; R5.1 – Associação de Piretróide e Neonicotinóide. Manejo E – Tratamento de Sementes (Fipronil + Neonicotinóide); V3 – Acefato; V8 – Profenofós; R3 – Carbosulfano; R5.1 – Associação de Piretróide e Neonicotinóide. *Medias seguidas por letras diferentes, maiúscula na linha, minúscula na coluna, diferem estatisticamente pelo teste de Scott Knott a 5% de probabilidade de erro. ns – não significativo. 

Por fim, não buscamos aqui recomendar algum destes manejos como padrão a ser adotado, mas sim evidenciar a variação existente entre manejos e a possibilidade da manutenção de baixas populações com o uso de diferentes ferramentas disponíveis no mercado. Vale ressaltar, que ferramentas inseticidas devem ser utilizadas de forma consciente, visando proteger a tecnologia. Desta forma, a rotação de princípios ativos, modos e mecanismos de ação deve ser preconizada sempre que possível. Outro ponto a ser destacado com relação a este estudo está relacionado a infestação de tripes. Neste, a área conduzida apresentava alta infestação, portanto os manejos foram preconizados de forma sequencial. Em cenários de lavoura, deve ser feito monitoramento para detectar a presença e grau de infestação e, a partir disto, determinar qual manejo deve ser empregado para reduzir a infestação.

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