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A Geografia Política e a Geopolítica dos Insumos

Eng. de Minas Leandro Fagundes (Ufpel e CEGM CREA-RS)
Geólogo Adelir J Strieder (Ufpel e CEGM CREA-RS)

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A pandemia de COVID-19, nos últimos dois anos, mostrou rupturas em diversas cadeias produtivas globais, com o deslocamento da demanda de serviços para bens, além de desequilíbrios no mercado de trabalho.

Mas, o tema a ser ressaltado é a Geopolítica: a área de estudos preocupada em entender as relações de poder entre os Estados, considerando as vias diplomáticas e militares. Não se deve deixar de lado a Geografia Política: a área de estudo sobre a interação entre a política e o território, nomeadamente no que diz respeito à administração. Vamos entender mais a fundo.

Cenário 1 – O Brasil é uma potência no agronegócio, já que ele responde por aproximadamente metade das exportações brasileiras (dentre os dez produtos mais exportados pelo País em 2019, oito são do agronegócio). 

As exportações vêm aumentando continuamente e a produção do agronegócio deve continuar a crescer. Segundo a CNA, Cepea e Esalq-USP, em 2021, os resultados do setor indicaram valores na faixa de R$ 183 bilhões, com crescimento de 8,4%, a despeito dos efeitos adversos do clima sobre as safras. 

Associados a este mercado, o Brasil é responsável por cerca de 8% do consumo global de fertilizantes, e o quarto maior consumidor do mundo, atrás de China, Índia e Estados Unidos. 

A velocidade de crescimento da demanda brasileira de fertilizantes tem superado o crescimento da oferta nacional, e seu atendimento tem ocorrido via aumento de importações. O País deixou de ser exportador de fertilizantes para ser grande importador entre 1992 e 2020.
 

Figura 01 – Perfil do consumo de fertilizantes por países
(https://www.indexmundi.com/commodities/)

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Cenário 2 – A produção nacional de petróleo e gás natural no final de 2021 indicava valores na faixa de 3,7 MMboe/d (milhões de barris de óleo equivalente por dia), sendo 78% referentes ao petróleo e 22% ao gás natural. Em março de 2022, este valor está na faixa de 2,9 MMboe/d, uma queda de 21%.

Cenário 3 – Segundo o Ibram, a produção total do setor mineral brasileiro em 2021 alcançou 1,150 bilhões de toneladas, mostrando um aumento de 7% sobre 2020. O faturamento global do setor atingiu R$ 339 bilhões, causado pelo forte aumento de preço das principais commodities minerais, combinado à valorização do dólar, o que explica o crescimento destes valores.


O minério de ferro representa 74% do faturamento setorial em 2021, seguido pelo ouro com 8% e o cobre com 5%. 

As exportações brasileiras subiram 34% em 2020 e 58,5% em 2021 (de USD 36,5 bilhões para USD 58 bilhões). Em quantidade de minério de ferro, as exportações foram de 357,7 Mtpa (milhões de tonelada por ano) ante 341,6 Mtpa no mesmo período. 

Observamos que falar sobre geopolítica é falar dos cenários e das dinâmicas políticas globais referentes aos principais recursos da atualidade, os quais estiveram em disputa pelas grandes potências econômicas internacionais nos últimos tempos.

Nos anos 1970, a importância era do petróleo. Hoje, em 2022, a importância está associada à relação entre o petróleo, agronegócio e mineronegócio, pois a humanidade é dependente deles, de seus usos e derivados.

Segundo especialistas do Ipea, o fim da guerra entre Rússia e Ucrânia é imprevisível, mas os seus efeitos comerciais já são factíveis pelos recentes desequilíbrios observados no fornecimento de petróleo e derivados, produtos agrícolas e fertilizantes.

Instabilidades que acometem a segurança energética e alimentar refletem na alta dos preços das commodities, que já vinham em uma tendência de alta em consequência da pandemia. A magnitude dos efeitos desse conflito geográfico político ainda é difícil de mensurar.

O cenário interno do Brasil é influenciado pelas políticas fiscal e pública, que pesam sobre o mercado interno e geram fortes incertezas. As atenções dos mercados continuam voltadas para o desdobramento do conflito na Ucrânia, assim como para a escalada do preço do petróleo e dos fertilizantes. Por outro lado, a alta das commodities agrícolas continua beneficiando o real em queda.

No cenário mundial futuro, o Brasil detém grandes oportunidades de negócios e responsabilidades na produção e no abastecimento mundial. O primeiro passo é conhecer quem tem competências, incluindo a disponibilidade de recursos naturais para dar suporte à produção de insumos, à produção agrícola e a sua comercialização. 

Mais de 80% (oitenta por cento) dos fertilizantes consumidos no Brasil são importados, a despeito da existência de grandes reservas de matérias-primas necessárias à produção de fertilizantes em território nacional. 

Figura 02 – Perfil MUNDIAL DAS RESERVAS e PRODUÇÃO de KCl
(https://www.indexmundi.com/commodities/).

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A crescente necessidade de aumento da produção de alimentos no mundo reclama o aumento do consumo de fertilizantes, criando maiores incentivos para a produção desses insumos agrícola em larga escala global. 

Há inequívocos aspectos diretamente relacionados à segurança nacional, tendo em vista os riscos à segurança alimentar decorrentes da expressiva dependência do agronegócio brasileiro em relação ao produto base importado. 

A despeito da autossuficiência na produção nacional de fertilizantes não ser objeto de uma possível ação coordenada por parte do Estado, não há dúvida de que o estabelecimento de uma estratégia de redução da dependência brasileira de importações é imprescindível.
 

Figura 03 – Perfil DOS PREÇOS PARA O SETOR DE FERTILIZANTES
(https://www.indexmundi.com/commodities/).

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