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Análise ergonômica do trabalho em uma empresa varejista: estudo orientado pelos sintomas autorrelatados

Daniel Henrique Ferrari
Mateus Zanatta

Daniel Henrique Ferrari

Engenheiro Civil (Unisinos) e Engenheiro de Segurança do Trabalho (UCS), CREA RS 245789, Email: dhferrari@ucs.br.

Mateus Zanatta

Bacharel em Design de Produto pela Universidade de Caxias do Sul (2009), especializado em Engenharia de Produção com ênfase em Ergonomia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS, 2011), mestre e doutor em Engenharia com ênfase em Sistemas de Produção pela UFRGS (2012 e 2017, respectivamente), Email: mzanatt2@ucs.br.

INTRODUÇÃO

O mercado de materiais da construção civil e de ramos mecânicos segue em constante aquecimento, mesmo em tempos de pandemia. Com a volta das atividades presenciais nas empresas desse setor, o comércio varejista local acaba necessitando aumentar o seu quadro de funcionários para garantir a qualidade no atendimento e no pós-venda.

As mudanças ocorridas no mundo do trabalho têm ocasionado alterações nas situações laborais com repercussões na saúde dos trabalhadores. Os processos de terceirização, enxugamento de mão de obra e mudanças na organização do trabalho trouxeram intensificação do trabalho com novas demandas e exigências (ROCHA, 2003). Logo, a ergonomia tem como maior objetivo mostrar os conhecimentos específicos sobre a atividade do trabalho humano. O intuito almejado no processo de produção de conhecimentos é divulgar sobre a carga do trabalhador, sendo a atividade do trabalho específica à cada trabalhador (IIDA,2005).

É possível perceber que a ergonomia é composta por um conjunto de ferramentas e métodos que auxiliam nos estudos para adaptar a máquina ao homem. Uma dessas ferramentas, que é bastante usada hoje em dia, é a Análise Ergonômica do Trabalho (AET). Esta é uma importante ferramenta para o entendimento do ambiente de trabalho, que visa o estudo da atividade humana como fonte principal de informação para as transformações de situações de trabalho, resultando em um melhor desempenho (VASCONCELOS, 2000).

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Ademais, conforme Grandjean (1998), existe uma gama de atividades que necessitam uma constante alteração da postura corporal. Por outro lado, há trabalhadores que permanecem, na maior parte da jornada de trabalho, estáticos, onde a movimentação é limitada, a postura da cabeça e olhar pouco se alteram e as posições forçadas dos membros superiores são uma constante manifestação no cotidiano.

No ponto de vista ergonômico, para uma loja varejista, a ergonomia não deve se fazer presente somente no espaço físico da loja, sendo assim, este estudo foi direcionado para a realização de análises com um enfoque em ergonomia em cinco postos de trabalho de uma loja varejista de ferramentas. A metodologia aplicada foi implementar um estudo de caso, utilizando o questionário presente no Anexo D da ABNT ISO/TS 20646:2017 – Diretrizes ergonômicas para a otimização das cargas de trabalho sobre o sistema musculoesquelético (Apêndice A), no qual o trabalhador relata os sintomas musculoesqueléticos após uma jornada de trabalho. O estudo foi complementado com o registro fotográfico, sendo esse feito anteriormente à resposta do funcionário ao questionário, com o intuito de analisar a posição rotineira do trabalhador, evitando imagens sem relevância aos resultados descritos no questionário.

DESENVOLVIMENTO E RESULTADOS

Os questionários foram analisados para os cinco postos de trabalho presentes na empresa: balcão de vendas, caixa, escritório/administrativo, almoxarifado e assistência técnica. Dessa forma, os resultados e discussões serão apresentados de forma individual para cada posto de trabalho e, ao final, uma perspectiva geral da empresa em relação aos resultados ergonômicos apresentados. Os gráficos que serão apresentados estão numa escala de cor, onde os tons de vermelho sempre apresentarão os sintomas mais graves, o amarelo como intermediários e os tons de verde, sinalizando os sintomas leves. Cabe ainda salientar que o questionário apresenta resultados para o lado esquerdo e para o lado direito do corpo, além de uma pesquisa de satisfação com o trabalho.

 

BALCÃO DE VENDAS

 

No setor do balcão de vendas foram entrevistados e fotografados cinco funcionários, que apresentaram dores maiores na região do pescoço, parte superior das costas e tornozelos (Figura 1). Quando comparados os resultados, pode-se notar que as prováveis dores estejam relacionadas à má posição na cadeira e também à altura do computador em relação ao pescoço, possivelmente criando uma inclinação que, com o acúmulo de dias trabalhados, pode gerar dores.

Figura 1 - Distribuição dos relatos de dor/desconforto no posto de vendas.

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Fonte: Autoral

CAIXA

No setor do caixa foram entrevistadas e fotografadas duas funcionárias, apresentando as dores mais fortes na parte superior dos braços (Figura 2). Quando comparados os resultados com as fotografias, pode-se notar que as prováveis dores estejam relacionadas à má posição dos braços, isto é, tem-se que os braços das trabalhadoras não têm um apoio contínuo, podendo corresponder à dor apresentada por uma delas. Provável também, que as dores de intensidade moderada, possam aumentar devido a posição incorreta para apoiar os braços, quando se trata dos ombros, e para as partes inferiores das pernas e tornozelos, pode-se dizer que nessa função há uma falta de alternância da posição do trabalho, isto é, a falta disso pode agravar as manifestações coletadas na pesquisa.

Figura 2 - Distribuição dos relatos de dor/desconforto no posto de caixa.

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Fonte: Autoral

ESCRITÓRIO/ADMINISTRATIVO

No setor do escritório/administrativo foram entrevistados e registrados cinco funcionários, não apresentando dores fortes ou excessivas (Figura 3). É possível afirmar que as cadeiras deste posto de trabalho estão adequadas para a função, além de alguns funcionários utilizarem apoios para os pés, ajudando no combate as dores. Cabe salientar que a maior preocupação deste posto é a da parte inferior das costas, onde a maioria sente uma dor moderada, isso pode ser relacionado à própria postura, pois mesmo com cadeiras ergonômicas de qualidade, nada adianta se a postura não for corrigida pelo próprio trabalhador, por isso são necessários treinamentos, e não somente equipamentos.

Figura 3 - Distribuição dos relatos de dor/desconforto no posto administrativo

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Fonte: Autoral

ALMOXARIFADO

No setor do almoxarifado foram entrevistados e registrados quatro funcionários. Com base nos achados, pode-se afirmar que esse posto é o mais crítico da empresa, identificando desconfortos nas partes das costas, quadris e joelhos (Figura 4).

Com a coleta de dados, foi identificado que todos os funcionários deste posto de trabalho fazem parte da carga e descarga de mercadorias que chegam na empresa. Isso pode ser uma explicação plausível para a manifestação das dores apresentadas, pois a movimentação de cargas em alta frequência pode causar dor e fadiga, levando a doenças musculoesqueléticas e reduzindo a produtividade. E, assim, somando-se com a parte de trabalho estável, as dores podem ser mais intensas. Para uma análise mais assertiva, pode-se utilizar outros métodos que levem em conta o trabalho de levantamento de cargas, como por exemplo o definido na Norma ISO 11228-1: 2017.

Figura 4 - Distribuição dos relatos de dor/desconforto no almoxarifado

Distribuição dos relatos de dor/desconforto no almoxarifado

Fonte: Autoral

ASSISTÊNCIA TÉCNICA

No setor da assistência técnica foram entrevistados e registrados quatro funcionários, que apresentaram as dores mais fortes na parte esquerda (Figura 5), o que pode levar à conclusão de que o movimento para fazer o conserto de um certo equipamento exija mais de uma parte do corpo que de outra. Há também outro cenário onde os funcionários entrevistados neste posto não utilizam ferramentas ergonômicas com a eficácia para melhorar os serviços, pois a repetição desses movimentos de conserto, numa soma geral, pode acarretar em dores em diferentes partes do corpo. Conforme analisado, as posições de trabalho não são favoráveis para o desempenho da função, onde temos a falta de apoio para os braços nas bancadas e assentos em desacordo para o desempenho da função.

Figura 5 - Distribuição dos relatos de dor/desconforto no posto de assistência técnica.

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Fonte: Autoral

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com o que foi exposto e discutido, de maneira geral, a empresa estudada e analisada apresenta poucas reclamações da situação do trabalho de seus funcionários. Entre todos os postos de trabalho, o caso mais crítico é o do almoxarifado, onde pode ser feita outra análise ergonômica, a partir de outro método, para conseguir trazer mudanças nas rotinas de trabalho, em prol da saúde do trabalhador. Na parte de assistência técnica uma possível melhora seria aumentar a área de apoio para a execução das tarefas. Ao se tratar do balcão de vendas, escritório/administrativo e caixa poderia haver a melhora das cadeiras e também elevar a altura dos computadores, evitando desconfortos diários na região do pescoço. Sendo assim, ainda se faz necessário que todos os funcionários tenham alguma palestra ou treinamento de instruções ergonômicas para saber utilizar de forma correta os equipamentos que são de uso diário. Ademais, esses treinamentos, além de explicar o manuseio, servem para aplicar uma mudança de cultura mental na empresa, de forma que todos os trabalhadores estejam prevenidos e seguros nos seus postos de trabalho. Cabe salientar que o trabalho desenvolvido, se limita à população-alvo estudada e à aplicação do questionário da norma, sendo um estudo preliminar para engajar a análise ergonômica do trabalho.

Portanto, pode-se considerar que as políticas internas e a capacitação dos funcionários deverão estar presentes nos planos de ações ergonômicos, com o intuito de almejar a total segurança e saúde do trabalho.

Como sugestões de trabalho futuro, pode-se fazer a aplicação dos questionários após a intervenção da empresa nos postos de trabalho, analisando e comparando as principais diferenças em cada setor.

 

Palavras-chave: Saúde e Segurança do Trabalho. Ergonomia. Análise Ergonômica do Trabalho.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (ABNT). ABNT ISO/TS 20646 Diretrizes ergonômicas para a otimização das cargas de trabalho sobre o sistema musculoesquelético. Rio de Janeiro: ABNT, 2017.

BRASIL. Ministério do Trabalho. NR 17: ergonomia. Brasília, DF: Ministério do Trabalho, 1978. Disponível em: https://www.gov.br/trabalho/pt-br/inspecao/seguranca-e-saude-no-trabalho/normas-regulamentadoras/nr-17.pdf.Acesso em: 24 de julho de 2021.

GRANDJEAN, ETIENNE. Manual da ergonomia? Adaptando o trabalho ao homem. Porto Alegre: Artes Médicas Sul Ltda.4ª Edição,1998,338p.

IIDA, ITIRO. Ergonomia: projeto e produção. São Paulo: Edgard Blücher Ltda., 2ª edição revisada e ampliada, 2005.

ROCHA, C.S. Análise Ergonômica do Trabalho da Equipe de Limpeza de uma Universidade Particular. Porto Alegre, 2003.

VASCONCELOS, R. C. Análise ergonômica do trabalho na prática: os condicionantes, as técnicas e as confrontações no desenvolvimento de uma intervenção ergonômica em situação de trabalho com lesões por esforços repetitivos. 2000.129 p. Dissertação - (mestrado em Engenharia de Produção), PPGEP, Universidade Federal de São Carlos - UFSCAR, São Carlos, 2000.

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