Engenheiros da UFRGS desenvolvem concreto têxtil em parceria com pesquisadores alemães

Você já ouviu falar em concreto têxtil? O nome ajuda a entender do que é composta esta tecnologia que é livre de corrosão e, por isso, promete maior resistência e durabilidade das estruturas.

O concreto têxtil, em inglês textile-concrete, é um tipo especial de concreto armado no qual se emprega como elemento de reforço uma tela polimérica que se assemelha a um tecido, e que substitui a armadura de aço usada no concreto armado tradicional. Ou seja, a tecnologia inova ao substituir as armaduras de aço por um “tecido” de matriz polimérica.

Foto: Solidian | Concreto têxtil e suas possibilidades

Também pode ser usado no reforço e reparo de estruturas corroídas. É uma abordagem inovadora que está sendo estudada na UFRGS, com bons resultados, segundo explica o professor e coordenador do grupo de pesquisa em Concreto Têxtil da UFRGS (Context), Eng. Civil Luiz Carlos Pinto da Silva Filho. “Pode ser usado na recuperação de construções históricas, na produção de pontes, móveis de concreto e outras estruturas de formas mais complexas e de menor espessura”, detalha.

Entre suas possíveis vantagens, está a capacidade de produzir componentes cujas seções transversais sejam mais esbeltas, com menor espessura do que as produzidas com concretos convencionais.

“O concreto têxtil é considerado um avanço justamente pelas vantagens que a armadura têxtil traz. Este novo tipo especial permite a criação de seções menos suscetíveis à corrosão, que têm boa flexibilidade de geração de formas e que nos permitem criar painéis mais leves e bem estruturados”, explica o professor Luiz Carlos Pinto da Silva Filho.

Foto: Solidian | Concreto têxtil e suas possibilidades

A possibilidade de redução do cobrimento das armaduras e a retirada dos elementos metálicos são vantagens para alguns usos da tecnologia. A última, inclusive, proporciona o maior destaque do material: sua durabilidade.

“A grande vantagem dele, além dessa capacidade de adequação de formas, é a resistência à corrosão. Além disto, substituindo a armadura de aço pelo reforço têxtil, eu ganho também leveza”, acrescenta.

Consequentemente, o menor uso de concreto e a durabilidade do material podem resultar em ganhos de sustentabilidade em algumas peças.

PONTE ALEMANHA-BRASIL

O concreto têxtil é um dos concretos especiais em estudo, validação e desenvolvimento no Laboratório de Ensaios e Modelos Estruturais (Leme) da UFRGS. A pesquisa foi impulsionada a partir de uma parceria feita com pesquisadores alemães, encabeçada pelo professor Hélio Greven, que começou os primeiros contatos.

O professor   Luiz Carlos Pinto da Silva Filho, coordenador do Contex, também é diretor de inovação da universidade e coordenador de pesquisa do Leme. Compõem o grupo de pesquisa junto com o professor, colegas docentes e pós-graduandos que estão pesquisando diferentes aspectos do concreto têxtil e de outros concretos especiais.

Foto: CONTEXT (LEME)

“Já havia conhecimento sobre esta tecnologia [o concreto têxtil] em outros países, mas, de fato, foi esse contato com a Alemanha que acabou sendo decisivo para que a gente pudesse avançar em um projeto de pesquisa e começar a se envolver de forma consistente como um grupo de pesquisa de referência nesse tema”, conta o coordenador.

A REALIDADE DO CONCRETO TÊXTIL

A primeira aplicação prática do concreto têxtil fica no sul da Alemanha, na cidade de Albstadt. O material compõe uma passarela de 97 metros de comprimento, feita com fios de fibra de vidro para armar os componentes pré-fabricados. A superestrutura com o concreto têxtil pesa, aproximadamente, 40% menos do que a execução com concreto armado.

Foto: Jörg-Singer | Passarela de concreto têxtil em Albstadt

Também na Alemanha, a reforma da catedral de Aachen é outra obra de referência. No país, já há empresas que desenvolvem comercialmente concreto têxtil para múltiplas aplicações, especialmente para painéis de fachadas.

O professor Luiz e outros professores da UFRGS, engajados com o projeto, fizeram uma proposta de implementação da tecnologia em Porto Alegre. A ideia era construir uma passarela na própria universidade, para demonstrar a tecnologia.

“Queríamos fazer em parceria com empresas e professores da arquitetura, mas, claro, existem dificuldades de financiamento e ainda não foi possível viabilizar esta obra piloto. Mas é um projeto que ainda pretendemos dar continuidade, para que a primeira aplicação real de concreto têxtil no Brasil ocorra em Porto Alegre”, deseja.

Luiz ressalta que, justamente por suas vantagens, o custo da tecnologia ainda é elevado. “Claro que esta tecnologia, até pelo uso da armadura têxtil polimérica tem um custo mais elevado. Por isso, ela é recomendada em peças que possam fazer o melhor aproveitamento das suas características, como em painéis delgados, de fachada, elementos que tenham seções um pouco mais complexas”, destaca. Segundo ele, saber fazer uso da tecnologia é o que garante sua competitividade.

POPULARIZAÇÃO E PESQUISA

No Brasil e no mundo, há interesse em popularizar esta tecnologia. Segundo Luiz, algumas empresas já estão olhando para o concreto têxtil. “Eu acho que os primeiros testes e aplicações em escala industrial devem acontecer em breve, mas claro que esse é um momento do mercado bastante complicado. As empresas receiam fazer apostas em novas tecnologias, devido às incertezas da pandemia”, ressalta.

O grupo Context busca apoiar a implantação no Brasil ao gerar mais conhecimento sobre o material, para que se possa entender suas características e limites, e pensar em usá-lo com total segurança, como explica Luiz: “Estamos gerando cada vez mais conhecimento para termos a segurança necessária na aplicação deste novo material. Os estudos já realizados indicam que é uma técnica promissora para ambientes mais agressivos e peças mais leves. Acredito que as primeiras aplicações serão feitas na indústria de pré-moldados ou em construções inseridas em ambiente marinho”.

Foto: Context/LEME | Pesquisadores do CONTEXT

As pesquisas continuam no Laboratório de Ensaios e Modelos Estruturais (Leme) da UFRGS, que abriga o Núcleo de Excelência de Concretos Especiais, implementado com apoio de recursos da Fapergs, que reúne os estudos com variações de concretos especiais, como este. “Queremos produzir e divulgar este conhecimento, para que as pessoas saibam quando empregar cada solução. Não existe uma solução mágica que vai servir para tudo, mas, existe sim, um leque de opções de onde escolhemos qual delas será a ideal para o melhor uso de suas propriedades”, conclui.

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