Dra. Adriana Maria Tonini, Diretora de Engenharias, Ciências Exatas, Humanas e Sociais do CNPq

Por Jô Santucci / Jornalista 

“Gostaria que o Sistema Confea/Crea fosse mais representando por mulheres e que todas fossem sempre respeitadas porque, afinal, a formação que receberam não difere da que os homens tiveram. Assim, somos iguais em competências, mas em oportunidades ainda há muito a conquistar.”

Uma mulher da Ciência, em todas as suas faces: na docência, na pesquisa, na extensão e na gestão. Assim podemos definir a Engenheira Civil Adriana Maria Tonini, doutora em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais (2007). Atualmente é diretora de Engenharias, Ciências Exatas, Humanas e Sociais do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Também é professora de graduação e pós-graduação na Universidade Federal de Ouro Preto e no Centro Federal de Educação Tecnológica, ambos de Minas Gerais. Suas pesquisas estão relacionadas à educação em Engenharia com foco nos currículos, formação, competências e nas mulheres em STEM (termo em inglês usado para determinar campos da Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática). Quanto à extensão, sempre busca fazer ações com a comunidade externa à universidade, envolvendo outros interessados na sociedade. Na gestão, já coordenou cursos de Engenharia, bem como de outros programas da educação básica. Uma das palestrantes da live Inserção de Meninas e Mulheres nas Ciências, promovida pelo CREA-RS em 23 de junho, Dia Internacional da Mulher Engenheira, Dra. Adriana Maria Tonini destacou a importância da ciência e tecnologia no ensino básico. Confira na entrevista a seguir.

CREA-RS – QUAL É O TRABALHO DA SENHORA DENTRO DO CNPQ E QUAIS FORAM AS SUAS EXPECTATIVAS AO ASSUMIR O CARGO EM 2017?

Dra. Adriana Maria Tonini – No CNPq assumi a Diretoria de Engenharias, Ciências Exatas, Humanas e Sociais, responsável pela gestão de ações finalísticas do CNPq, vinculadas diretamente ao fomento à pesquisa nessas áreas.

Minhas expectativas ao iniciar a gestão no CNPq eram de poder atuar em todas essas áreas, divulgando ações do CNPq em todo Brasil e incentivando a inserção de pesquisadores de todas as regiões brasileiras. Lá, me envolvi diretamente também com a busca de equidade de gênero em todas as áreas do conhecimento.

CREA-RS – A SENHORA PODERIA NOS FALAR SOBRE O PROGRAMA DO CONSELHO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO E TECNOLÓGICO (CNPQ) MULHERES E MENINAS NAS CIÊNCIAS EXATAS, ENGENHARIAS E COMPUTAÇÃO, INICIADO EM 2018, E QUE CONTEMPLOU CINCO PROJETOS DE UNIVERSIDADES GAÚCHAS. QUAL É O OBJETIVO DESTE PROJETO? ESTÃO CONSTRUINDO O FUTURO?

Dra. Adriana Maria Tonini – O Programa Mulher e Ciência surgiu em 2005 de uma parceria entre a antiga Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM/PR); o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI); o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq); o Ministério da Educação (MEC); o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e a ONU Mulheres, para atuar no combate à segregação vertical e horizontal.

Umas das ações que considero extremamente relevante para as mulheres nas Engenharias é exatamente a chamada Mulheres e Meninas nas Ciências Exatas, Engenharias e Computação, que foi lançada para estimular a participação e a formação de meninas e mulheres para as carreiras de ciências exatas, Engenharias e computação, além de proporcionar a integração escola e ICTs, atuando com as meninas desde o ensino fundamental com o objetivo de despertar a vocação e permitir que elas percebam que as áreas STEM também são para mulheres e que elas podem ocupar um lugar.

CREA-RS – QUANTAS E QUAIS AS UNIVERSIDADES GAÚCHAS FORAM SELECIONADAS?

Dra. Adriana Maria Tonini – Nessa chamada o CNPq apoiou 18 projetos em 14 instituições diferentes do RS: a Fundação Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre; Universidade Federal do Rio Grande do Sul; Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul; Universidade Estadual do Rio Grande do Sul; Universidade Federal do Rio Grande; Universidade de Caxias do Sul; Universidade de Santa Cruz do Sul; Universidade Federal de Pelotas; Universidade Federal do Pampa; Universidade Federal de Santa Maria; Universidade do Vale do Taquari; Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul; Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre; Universidade Regional Integrada Santo Ângelo .

CREA-RS – QUAIS SÃO OS RESULTADOS GERAIS DO PROGRAMA?

Dra. Adriana Maria Tonini – Ainda não temos dados consolidados sobre os resultados e a continuidade dos projetos da Chamada 31/2018. Até o momento, é possível perceber que alguns projetos pretendem dar continuidade às ações, alguns com apoio da própria universidade, outros com apoios externos. Em relação aos resultados, também é possível destacar que, a exemplo da Chamada anterior (18/2013), o que vimos até o momento é animador no tocante ao impacto na vida das jovens estudantes. Muitas meninas e jovens entendem que sua participação no projeto estimulou seu pensamento científico e a criatividade e ao mesmo tempo consideram que proporcionou a aprendizagem de técnicas e de métodos científicos. Destacam que o projeto despertou seu interesse para a pesquisa e para as áreas de conhecimento, o que está plenamente articulado com maior parte das ações apoiadas, que envolveram estudos e pesquisas científicas. Também relatam que o interesse pelas áreas específicas nas quais os projetos foram desenvolvidos foi aprofundado e perceberam que reforçaram sua escolha profissional, o que indica que a Chamada tem impacto nas escolhas das jovens pelas áreas de Ciências Exatas, Engenharias e Computação.

CREA-RS – ESTE PROJETO FOI IMPLANTADO EM TODO O BRASIL, ATINGINDO A META ESTABELECIDA. COMO OPORTUNIZAR A INFORMAÇÃO PARA O EMPODERAMENTO DESSAS MENINAS E MULHERES?

Dra. Adriana Maria Tonini – Tivemos projetos aprovados em todo o Brasil proporcionando não apenas empoderamento, mas oportunizando a meninas conhecer e aprofundar nas áreas STEM por meio de diversas atividades, como:

• Atividades nas instalações da instituição do/a coordenador/a do projeto (visitas a laboratórios e instalações, entre outras);

• Atividades de iniciação à pesquisa que incluam teoria e prática científica adequada aos objetivos do projeto proposto;

• Atividades nas escolas participantes (oficinas, palestras, cursos, competições, exposições, núcleos de experimentação científica, entre outras);

• Atividades de divulgação do projeto fora da escola (por meio de eventos, blogs, vídeos, páginas em redes sociais, entre outras), com o uso de técnicas modernas de comunicação pública da ciência para a produção/elaboração ou emprego de materiais audiovisuais inovadores e criativos que convidem as jovens a conhecer o tema;

• Cursos de capacitação para professores das escolas participantes nas áreas de ciências exatas, computação e tecnologias;

• Atividades de preparação das alunas para participação em olimpíadas, mostras, feiras de ciências e outras modalidades de concursos científicos, bem como em atividades da SNCT, seminários de iniciação científica e outras atividades semelhantes;

• Programa de aulas complementares para as alunas, com foco em ciências exatas, computação e tecnologias;

• Criação de um núcleo de apoio nas escolas para manutenção das atividades após o encerramento da vigência dos projetos;

• Desenvolvimento de produtos voltados à melhoria do ensino nas áreas de ciências exatas e à incorporação de tecnologias digitais de informação e comunicação ao ensino;

• Elaboração de programa de treinamento e/ou capacitação para as meninas e jovens nas ciências exatas, Engenharias, computação, robótica, com desenvolvimento de jogos, games, aplicativos educativos e congêneres;

• Previsão de mostra de vídeos, palestras e oficinas com uso de recursos audiovisuais e/ou outras formas que demonstrem para a comunidade escolar a existência de mulheres como cientistas e pesquisadoras, com contribuições significativas para a ciência e a tecnologia no Brasil e no mundo.

CREA-RS – QUAIS SÃO AS DICAS DO QUE FAZER E NÃO FAZER EM PROJETOS DE INCENTIVO A MULHERES NAS CIÊNCIAS, PRINCIPALMENTE NESTE MOMENTO QUE EXISTE UM NEGACIONISMO COM RELAÇÃO À CIÊNCIA E ÀS PESQUISAS. QUAL É A PRINCIPAL LIÇÃO DO ENSINO DAS CIÊNCIAS NESTE MOMENTO?

Dra. Adriana Maria Tonini – Esse é um ponto bem anterior ao que tratamos por meio do Programa Mulher e Ciência. Infelizmente, falta no nosso País um maior letramento científico, seja na compreensão de conceitos científicos, como na capacidade de aplicá-los a fim de pensar sob uma perspectiva científica, sendo capaz de avaliar informações e, por exemplo, identificar fake news. Vemos que até os editoriais de ciência e tecnologia dos grandes jornais do País tem cada vez menos visibilidade, o que é lamentável. Por mais que ações como a chamada das Meninas e Jovens em Ciências Exatas, Engenharias e Computação auxiliem nessa questão, toca apenas a superfície de um problema muito grande. Para minimizar essa questão, o CNPq tem trabalhado por uma política robusta de divulgação científica.

CREA-RS – A SENHORA TEM FORMAÇÃO EM ENGENHARIA CIVIL, ÁREA NOTADAMENTE MASCULINA, ASSIM COMO MUITAS ENGENHARIAS. COMO ATRAIR MAIS MULHERES PARA ESSES ESPAÇOS E INSERIR A CIÊNCIA NO MOMENTO EM QUE AS MULHERES ESTÃO AVALIANDO A SUA VOCAÇÃO PROFISSIONAL?

Dra. Adriana Maria Tonini – A atração de mulheres para as áreas das Engenharias deve começar ainda na infância, através do acesso aos brinquedos que estimulem a criatividade das meninas e não criem ou intensifiquem estereótipos. Além disso, é importante que durante a educação básica sejam apresentadas a um amplo leque de formação, permitindo uma escolha mais fundamentada e menos influenciada por pré-conceitos. É preciso fazer divulgação científica nas áreas STEM pois hoje são poucos os pesquisadores que se preocupam em realizar essas ações na educação básica, o que certamente iria contribuir muito para as escolhas profissionais nas áreas das Engenharias, por parte das meninas. Ressalto ainda que ciência, tecnologia e inovação caminham juntas e, se bem desenvolvidas, vão resultar em benefícios práticos para a sociedade e geração de riqueza. Perceber que se pode ser parte disso pode atrair todos os perfis de estudantes.

CREA-RS – EM TEMPOS DE PANDEMIA E O ENSINO EM FORMATO EAD, COMO FOI POSSÍVEL COLOCAR ESTES PROJETOS NA PRÁTICA?

Dra. Adriana Maria Tonini – Os projetos iniciaram antes da pandemia. E, como todas as demais atividades, precisaram se adaptar para poder continuar. Apesar dos problemas trazidos pela pandemia, temos certeza que o envolvimento com projetos dessa natureza trouxe um estímulo a mais para os estudantes se ajustarem ao dito “novo normal”.

CREA-RS – QUAL É A AVALIAÇÃO DA SENHORA COM RELAÇÃO AO FATO DE OS PROFISSIONAIS DA ENGENHARIA ESTAREM MIGRANDO PARA SETORES COMO LOGÍSTICA, ANÁLISE DE DADOS, MARKETING? NÃO EXISTE ESPAÇO NAS ATIVIDADES DA ENGENHARIA?

Dra. Adriana Maria Tonini – A ampla formação matemática e analítica da Engenharia, bem como de algumas outras áreas das ciências exatas, permite a atuação do profissional nas diversas áreas do mercado de trabalho em que ele pode ser requisitado. Não é algo necessariamente ruim, mas reflexo de uma formação que permite atuar em diferentes frentes, como por exemplo, no mercado financeiro onde hoje tem-se muitos Engenheiros atuando.

CREA-RS – POR QUE É IMPORTANTE O INCENTIVO NA FORMAÇÃO DE MAIS E MELHORES PESQUISADORES NO BRASIL E QUAL É O PAPEL DO CNPQ NESSE PROCESSO?

Dra. Adriana Maria Tonini – Uma nação somente se desenvolve com investimentos em CT&I (Ciência, Tecnologia e Inovação) e o incentivo na carreira dos pesquisadores é fundamental. Muitos investimentos públicos e privados em CT&I, desde a ciência básica até a inserção de pesquisadores nas empresas, são necessários para atacarmos as carências do nosso País, agregarmos valor aos nossos produtos, afirmarmos nossa independência e soberania, fortalecermos nossas empresas, expandirmos uma matriz de desenvolvimento sustentável e criarmos um ecossistema de desenvolvimento continuado. A pandemia é um bom exemplo para observarmos isso: a ciência tem sido fundamental para criarmos saídas para esse momento, em especial no desenvolvimento de vacinas. O CNPq tem um papel essencial para o fomento da CT&I, permitindo o desenvolvimento de muitas pesquisas por todo o País, em todas as áreas do conhecimento.

CREA-RS – OUTROS PAÍSES TAMBÉM ENFRENTAM A MESMA DIFICULDADE COM A FALTA DE INCENTIVO ÀS PESQUISAS, COMO VIVEMOS ATUALMENTE NO BRASIL?

Dra. Adriana Maria Tonini – O investimento em CT&I deve ser uma prioridade de Estado, numa perspectiva de longo prazo. Muitas pessoas acham que se deve priorizar o investimento em necessidades imediatas, mas políticas bem estruturadas de investimento em pesquisa permitem um crescimento mais sólido, com mitigação mais eficiente de diversos problemas. Países como Israel, Coréia do Sul, Japão, EUA, China e Alemanha investem de 2 a 4,5% do seu PIB em P&D. O Brasil investe pouco mais de 1%, com índices comparáveis à Rússia, Espanha, Itália e África do Sul. Nosso investimento é maior do que outros países da América Latina, mas ainda estamos muito distantes do ideal, ainda mais se pensarmos no tamanho da nossa economia, na diversidade do nosso território e de seus recursos e no potencial do nosso povo.

CREA-RS – GOSTARIA DE DEIXAR UM RECADO ÀS PROFISSIONAIS DO SISTEMA CONFEA/CREA?

Dra. Adriana Maria Tonini – Gostaria que o Sistema Confea/Crea fosse mais representando por mulheres e que todas fossem sempre respeitadas porque, afinal, a formação que receberam não difere da que os homens tiveram. Assim, somos iguais em competências, mas em oportunidades ainda há muito a conquistar.

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