O País do futuro
estaciona no passado

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A partir dos cases de projetos em universidade que fomentam a indústria nacional, vistos acima, e da falta de interesse governamental nestas áreas com o exemplo de empresa pública da área de tecnologia que está em processo de liquidação no Estado (leia abaixo),é possível ver o potencial que o País desperdiça e que mantém o Brasil um importador de produtos com maior tecnologia abarcada e exportador de produtos primários e commodities e que causa, ainda, a migração de pesquisadores e cientistas.

Problemas estruturais

 “Há indicadores de competividade e inovação internacionais que consideram questões variadas, então vemos que o Brasil tem números baixos em inovação, porque ele está mal numa série de ingredientes que são necessários resolver para ser um País inovador e competitivo”, destaca o professor do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade Federal de Santa Catarina Álvaro Toubes Prata, que é conselheiro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) na região sul (RS e SC).

Ele cita a baixa taxa de escolaridade brasileira comparada a outros países. “Estamos falando, de forma geral, de números de crianças fora da escola, daqueles que acabam o ensino médio e não entram na universidade ou ensino técnico, dos que ingressam numa universidade e não concluem, ou, ainda, aqueles que conseguem concluir, mas se formam em áreas diferente daquelas que trariam competividade, como Engenharias, ciências ou matemática, por exemplo. ”

O percentual do Produto Interno Bruto investido em pesquisa e desenvolvimento também impacta, de acordo com o professor. “O Brasil investe 1,2% do seu PIB em pesquisa e desenvolvimento, número muito baixo se comparado com outros países. Países razoáveis nesta área, estão investindo 2%, já os que são muito competitivos – por exemplo a Coreia - está investindo 4% do PIB. Então, isso reflete em inovação, pois as instituições brasileiras ligadas à pesquisa e desenvolvimento são em número menor e não tem a infraestrutura que deveriam ter.

Um outro aspecto destacado por Prata é a quantidade de pesquisadores e cientistas em relação à população. O País não chega a mil pesquisados por milhão de habitantes. “Novamente, não precisa ser uma Dinamarca, que tem oito mil por milhão de habitante, mas nós tínhamos que estar com dois mil pelo menos. Estamos muito abaixo da média mundial que é 1,4 mil, ficando atrás da Turquia, Argentina, entre outros.”

Para ele, outro empecilho são as dificuldades para levar as pesquisas acadêmicas às ruas. “A inovação pressupõe que você tenha boas ideias, seja criativo, mas que você consiga implementar isso. Não basta ter uma boa ideia e ela não chegar à sociedade, se você não comercializa a ideia”, relata, citando a falta de uma boa infraestrutura, a grande burocracia e as questões tributárias. “Temos o ‘custo Brasil’, as empresas gastam muito e fazem um esforço enorme para abrir e se manterem”.

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Engenheiros e Engenheiras

“Nós precisamos formar muitos Engenheiros, porque eles têm como missão realizar, materializar desenvolvimento e transformar aquilo em benefício para a sociedade. É claro que todas as áreas do desenvolvimento são importantes. Mas precisamos ter um número maior de Engenheiros sendo formados. Quando a gente compara com outros países – incluindo ciências em geral, matemática, formamos pouco nestas áreas, e isso é conhecimento e o Engenheiro tem muito essa atribuição de transformar conhecimento em riqueza.”

Professor Álvaro Toubes Prata.

Falta de consistência
de investimentos

Professor Titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ex-diretor da Escola de Engenharia (2012-2020), e atual secretário de Inovação da capital gaúcha o Eng. Civil Luiz Carlos Pinto da Silva Filho, ressalta um ponto positivo que são os investimentos que, desde as décadas de 1970 e 1980, estruturaram os programas de iniciação científica e de viagens de qualificação de docentes ao exterior. “Então temos algumas políticas interessantes estruturais, mas o problema é que isso é formação de recursos humanos, depois precisa ter uma política efetivamente de infraestrutura, pesquisa, investimentos e transferência dessa pesquisa para ela ter efetivamente valor para a sociedade”, pondera.

Para ele, há um fator cultural e que atravancou o desenvolvimento nacional, que foi levar o empresariado e a iniciativa privada a entender o valor da inovação e do uso das tecnologias na criação de novos negócios.  “Durante muito tempo tivemos esta dificuldade de alavancar o investimento do setor privado. E agora, quando estamos começando a girar esta chave, ter essa pressão forte das empresas entenderem que se elas não inovarem não vão ter relevância nesse mercado futuro, tivemos um problema muito forte de desestruturação do sistema público de financiamento”, explica.

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A sincronia desses setores e a consistência dos investimentos são fatores que considera primordiais para alcançar maiores níveis de inovação. “É muito legal ver algumas coisas acontecendo e isso bater na Engenharia, têm vários mercados, por exemplo, as markets, que são os startups da área de marketing, baseadas em inteligência de dados, unindo Engenheiros de dados com pessoal da área da publicidade. Quando temos essa sincronia de estar vivendo uma onda que puxa pela inovação, que valoriza a inovação e o empreendedorismo, associada com essa falta de política de desenvolvimento industrial e de pesquisa que seja estratégica, as coisas não andam como deveriam”, relata.

Ele ressalta que o fato dos startups das áreas de Engenharia precisarem de maior financiamento e suporte, devido à necessidade de testes reais, necessitam de maiores investimentos em equipamentos e infraestrutura. “Então sim, nesse início do trecho, é principalmente o financiamento público que dá sustentação. Depois a gente vai ter o investimento privado, que tem que complementar isso, pois começamos a apostar naquelas empresas ou ideias e patentes que se mostram mais competitivas para serem transferidas para o mercado.”

Ele cita o Sebrae, o Finep e as próprias universidades como os exemplos de entidades que fomentam as Technology Readiness Level (TRL) ou Níveis de Prontidão de Tecnologia iniciais. “O fato de termos estas estruturas que permitem pegar aqueles TRLS mais baixos, quando as ideias estão começando a se formar, e que passe por novas regulamentações para que esses testes sejam levados para prática, ou seja a lógica do sandbox, que veio no Marco Legal das Startups, tem que realmente ser implementada na prática, e para isso precisamos convencer o poder público de que ele é o melhor campo de teste para essas ideias. Que ele precisa recebê-las bem para que possam ser testadas e que consigamos filtrar aquelas que têm mais possibilidades de se tornar mais impactantes.”

Atuais cortes na educação,
ciência e tecnologia

Além das questões citadas, os últimos anos estão sendo marcados por constantes e amplos cortes nos investimentos estatais nas áreas da educação, pesquisa e ciência. A educação e a ciência e tecnologia, este último com corte de 87% de sua verba, foram as áreas mais atingidas por reduções orçamentárias no atual governo.

No CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico a redução de verba foi, em 2020, de $ 127,4 milhões, a verba despencou para R$ 16,5 milhões. Conforme o decreto nº 10.686, de abril de 2021, o Ministério da Educação teve R$ 2,7 bilhões bloqueados, o equivalente a 30% do total bloqueado, e R$ 2,2 bilhões vetados, somando quase R$ 5 bilhões a menos.

O professor Luis Carlos analisa que os cortes, além do impacto de curto prazo com a escassez de recursos, prejudicam a formação de pesquisadores, a manutenção e atualização de equipamento e opera uma quebra na cadeia de potencial tecnológico que se desenvolvia. “Então tem um efeito de longo prazo de falta de consistência e de fazer com que voltemos para muito atrás. Depois, não é apenas ‘religar’ a pesquisa, tu és obrigado a retornar para reformar laboratórios, refazer recursos humanos. Estamos dando um grande passo para trás. Não é só a falta de recursos, é a falta de norte, de estratégia, de sinalização do que é o mais importante”, considera, ponderando, porém, as diferenças nas esferas governamentais. “É claro temos realidades distintas no quadro estadual, onde temos feito um trabalho bem mais interessante com a Fapergs, então existem diferenças nas esferas em relação ao que está acontecendo.”

Apesar disso, Prata não considera baixos os investimentos em educação, mas acha necessário qualificar sua aplicação. “É preciso melhorar o salário dos professores, sobretudo do ensino fundamental e médio, assim você aperfeiçoa a educação de uma maneira geral e isso impacta nas escolhas que as pessoas fazem para o futuro e na maneira como elas vão exercer suas funções. Se você educa todas as crianças e jovens que estão aí hoje, as transformações ocorrem muito rápido. Você só precisa de uma geração para mudar um país”, ressalta. “Ter esta preocupação é de fundamental importância. O Brasil fala que se preocupa com a educação, mas efetivamente as desigualdades que nós temos impedem que a gente possa educar bem a nossa população”, conclui.

Relata, no entanto, ser o Brasil, com todos seus déficits, um dos países que mais produz conhecimento no mundo. “Nós temos cerca de 2% da população mundial e representamos mais de 3% do conhecimento gerado no mundo.  O Brasil é o 11º, 12ª do ranking dos países que mais produzem conhecimento no mundo. Em algumas áreas – medicina tropical, ciências ambientais, ciências espaciais – nós somos muito competitivos internacionalmente. Então o brasileiro é inteligente e competitivo, mas competitivos a partir do nosso potencial, que não efetivamos pelas circunstancias que o País se encontra.”

Fuga de cérebros

Um dos efeitos mais drásticos da atual falta de perspectivas para quem trabalha com pesquisa é a busca de postos de trabalho e atuação em outros países. A fuga de recursos humanos, gestados no País já é uma realidade, como explica o professor Luiz Carlos, movimento que existia há anos atrás e estava sendo revertido. 

Ele faz um pequeno histórico. “Tivemos esse efeito num primeiro momento, porque tínhamos estruturas de pesquisas menos maduras no Brasil, então para alguns pesquisadores era mais atraente já estar em setores mais maduros. Depois conseguimos articular, com a vinda de pesquisadores, tendo alguns anos de financiamento adequado, muitas estruturas laboratoriais e chegamos a um ponto que a gente não precisava mais nem mandar tanta gente para fora. E esse esforço todo que estava começando a manter aqui ou até resgatar alguns dos talentos – ciência sem fronteiras é um momento importante, por exemplo em que tínhamos recurso importantes para área de pesquisas, fundos setoriais, do FMDCT – só que esse esvaziamento de recursos e, principalmente, essa falta de norte do que vai acontecer, essa insegurança de se hoje vale a pena investir na carreira de pesquisador (que tem no meio) ela tem voltado a afastar pessoas, não só da carreira, mas também estimulado que alguns profissionais que não gostariam, deixassem o país.”

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Luiz Carlos, que é professor da UFRGS, umas das principais universidades do País, relata a realidade na universidade. “Trabalhamos com grupos que são muito competitivos, então temos visto pessoas de ficarem voluntárias, reduzir o número de bolsas, mas o pessoal ainda quer trabalhar porque temos toda uma reputação, uma trajetória que continua a atrair alunos, mas temos toda uma dificuldade de se manter nos seus cursos, pela ausência de recursos, de fazer pesquisas mais ousadas, porque faltam financiamentos. E isso começa a ter um efeito que vai desacelerando e depois tu não consegues ligar imediatamente, se começa a perder algumas pessoas que viemos formando, há seis, sete, oito anos as vezes. Tem pós-doutores, que há dez anos estamos “criando” esse pesquisador e ele pode desistir, fazer outra coisa ou mudar para outro país.”   

E concluiu: “Não é um cenário muito claro, o que eles tentaram fazer é usar da resiliência da própria pesquisa, usar as próprias parcerias com as empresas, tentar trazer algum financiamento que seja muito desses setores mais estratégicos, além de alguns financiamentos internacionais, então claro a pesquisa tenta sobreviver, mas ela certamente está sofrendo bastante nesse momento.”

Ceitec: única empresa de chips da América Latina
prestes a encerrar atividades

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A sede da Ceitec está

localizada em Porto Alegre

Única empresa na América Latina que contempla todas as etapas para a produção de chips eletrônicos, a Ceitec projeta, fabrica e comercializa circuitos integrados (chips) para aplicações em identificação de animais, medicamentos, pessoas e veículos, além de autenticação, gestão de inventário, controle de ativos, entre outras.

Depois de empregar mais de 200 profissionais, entre mestres, doutores e especialistas, com grande quantidade de patentes e designs de circuitos desenvolvidos, que deveriam ser preservados, a empresa pública de semicondutores vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), instalada na Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre, encontra-se em momento difícil.

Fundada em 2008, com as obras entregues em 2011, a infraestrutura da fábrica entrou em operação em 2016. Para especialista em Tecnologia Eletrônica Avançada da empresa, o Eng. Mec. e Mestre em Eng. de Materiais Silvio Luis dos Reis Santos Júnior, no cenário atual este é um investimento perdido. À época, os produtos em desenvolvimento, os chips para pecuária e para o passaporte, entre eles, teriam como principal cliente o Governo Federal, a expectativa que não se confirmou.

​“Nestes projetos houve muito dinheiro público e muitas horas de recursos humanos investidos, e isso tudo não aparece como investimento neste momento da liquidação, aparece como um custo. Apesar dos produtos não terem obtido o sucesso de vendas esperada, as pessoas tiveram uma qualificação técnica aprimorada e proporcionaram a derivação para outros produtos que teriam mercado”, explica ele, que considera que o valor investido teve pouca adesão interna por opção de política pública do governo federal.

Liquidação

As desacelerações nos investimentos datam de 2019. Já a liquidação está sendo realizada através do Programa de Parcerias de Investimento (PPI) do Ministério da Economia, que entre as alterativas teria a de acelerar a captação de recursos, aportar mais recursos financeiros e assim fazer melhorias do processo.​

 

"Porém, já na terceira reunião do grupo (do PPI), já se decidiu que a empresa deveria ser incluída no Programa Nacional de Desestatização (PND) e posterior liquidação. Faltou uma visão técnica, um olhar sobre as oportunidades para a Ceitec. O que prevaleceu foi uma visão política para acabar com a empresa.” Para Silvio, a venda seria uma opção acertada, pois a iniciativa privada poderia comprar. “A opção foi pela dissolução societária, que é o mais drástico modelo de desestatização que o Governo Federal aplica.”

Descomissionamento da Planta Química

Outro problema por ele apontado, foi o planejamento do desmonte da empresa ter ficado sob responsabilidade do liquidante. “Há um custo para descontaminação e descondicionamento – o governo não avaliou corretamente os riscos, então optou pela dissolução e atribuiu toda a responsabilidade do planejamento desta etapa ao liquidante. O liquidante quando chegou na Ceitec também não soube o que fazer pois tem experiência apenas com a liquidação de uma empresa de silos e armazenagem”, explica o Engenheiro.

Considera ainda, que a liquidação está avançando de maneira pouco organizada. “Assim corremos o risco de ter uma desocupação dos prédios administrativos e fabril sem ocorrer a correta descontaminação”, destaca, e afirma acreditar não haver no Brasil empresa com experiência para realizar o processo. “É uma planta química com equipamentos muito únicos no País. ”

O que perdemos sem a Ceitec

“Existem inúmeros dispositivos eletrônicos presentes no nosso dia-a-dia que podem ter componentes feitos com os equipamentos e conhecimento que temos na Ceitec, inclusive da área médica, e que são tecnologias de ponta”, destaca o Engenheiro.

“O que temos na América Latina são laboratórios de pesquisa com uma certa capacidade produtiva, mas não comparada com a planta da Ceitec. Dentro do cenário brasileiro é a única indústria de semicondutores que fabrica chips de ponta a ponta; as demais fazem apenas uma etapa do processo: ou projetam os circuitos (design houses), ou realizam o encapsulamento do produto, ou montam as placas eletrônicas nos produtos que estamos acostumados a ver, que é o que acontece na Zona Franca de Manaus, por exemplo.”

Conforme detalha, isso faz da Ceitec a única no continente que contempla o desenvolvimento e a fabricação dos produtos na mesma planta. “É um modelo de negócio que só algumas empresas no mundo têm. Na América Latina não existe outra que possa desenvolver o chip em cima do silício ou outro semicondutor em padrão industrial. ”

O valor agregado ou número de chips de cada lâmina vai depender do desenho do produto propriamente dito. “Um chip comodity vale centavos de dólar, mas deve ser produzido em larga escala. Já um chip especializado, com maior valor agregado, é produzido em menor quantidade mas pode valer centenas de dólares a unidade”, relata Silvio Luis dos Reis Santos Júnior, destacando o investimento de outros países no setor, considerado estratégico.

Universidade e indústria: