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O Covid-19 não parou a Engenharia e a área técnica

Atualizado: Out 1

Por Luciana Patella | Equipe de Comunicação CREA-RS

A construção civil desacelerou, mas seguiu em atividade e conseguiu gerar empregos em meio à pandemia

Uma pandemia paralisou o mundo em 2020. O coronavírus levou países de todos os continentes a fecharem fronteiras e obrigou milhões de pessoas a cumprirem meses de quarentena forçada. Ações necessárias na busca de desacelerar a disseminação da Covid-19, doença resultante do vírus, e evitar o colapso das estruturas de saúde.


Com a circulação extremamente reduzida, comércio e serviços vivendo entre abertura parcial e fechamento completo, a economia sofreu. As áreas das Engenharias também têm sido atingidas, porém os profissionais do Sistema Confea/Crea não pararam e demonstram a resiliência do setor, que deve também ser um dos motores para a retomada econômica nos próximos meses.


A manutenção destas atividades é refletida nos números de Anotações de Responsabilidades Técnicas (ARTs) registradas no primeiro semestre de 2020, em comparação ao mesmo período do ano anterior, que tiveram alguma queda, mas rapidamente voltaram a subir. No âmbito nacional, conforme dados do Confea, entre 1º de janeiro e 30 de junho, foram emitidas perto de 2 milhões de ARTs (2.047.136), número 11,7% menor do que o de registros do mesmo período no ano passado. O estado com mais Anotações foi São Paulo (532.589), seguido de Minas Gerais (263.720) e Paraná (199.342).



Regionalmente o impacto foi levemente mais alto. No Rio Grande do Sul, foram 174.157 ARTs no primeiro semestre de 2019, contra 152.009, no mesmo período deste ano, uma redução de 12,7% percentual. Os meses que mais impactaram na queda do semestre foram abril e maio, início da quarentena, tendo abril como o mês crítico, com 11 mil registros a menos do que o mesmo mês de 2019. A partir de junho se vê uma retomada, com números muito próximos dos do ano passado, cenário que se repete em julho.

Construção Civil: mercado imobiliário aquece setor

Possibilidade de home office fez compras de imóveis no litoral aumentarem (Foto Camila Domingues/Palácio Piratini)


Apesar de ter sido impactada com algumas paralisações devido às restrições impostas pelo isolamento social, o setor está mantendo o fôlego em tempos de pandemia e fechou o mês de julho com mais 17.270 postos de trabalho no País. No Rio Grande do Sul e Porto Alegre o saldo líquido nas contratações também foi positivo em junho, com 297 e 38 respectivamente, segundo as informações divulgadas pelo Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon) do Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Novo Caged).


Mesmo nos períodos de isolamento social a Fiscalização continua atuando e mantendo-se ativa em ações na área da construção civil em obras públicas e particulares

Mesmo nos períodos de isolamento social a Fiscalização continua atuando e mantendo-se ativa em ações na área da construção civil em obras públicas e particulares. “No Rio Grande do Sul a construção civil foi mais impactada em Porto Alegre, devido aos decretos municipais que paralisaram por duas vezes o setor, mas, por outro lado, está acontecendo uma grande procura pela aquisição de imóveis provocada pela percepção das pessoas da valorização da moradia, tendo em vista os longos períodos de isolamento social a que estamos sendo impostos”, explica o presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil, Eng. Civil Aquiles Dal Molin Junior.


Redução de juros auxiliou setor


De acordo com ele, os aumentos nos negócios são fruto de outros dois fatores: a redução dos juros dos financiamentos imobiliários e a baixa atratividade dos investimentos financeiros de renda fixa. “Estas condições somadas estão tornando os imóveis uma ótima oportunidade de investimento e fonte de aplicação.” Dal Molin cita o caso do Litoral Norte, onde o mercado imobiliário está vivendo uma alta desde o início do isolamento social, com a procura principalmente voltada aos condomínios fechados. “O ‘novo normal’, com mais tempo em casa e muitas pessoas em home office, traz uma busca por uma maior proximidade com a natureza. Então, além de casas no litoral, residências com sacadas e varandas também têm sido muito valorizadas.”

Eng. Civil Aquiles Dal Molin Junior

Juros baixos e controle da inflação devem permanecer para que a retomada integral da atividade social e econômica aconteça

Sobre o futuro próximo, o Engenheiro é otimista. “O momento que vivemos tem sido de muitas dificuldades para praticamente todos os setores da economia, mas existe uma expectativa muito interessante para 2021 - pós-pandemia – e 2022, pois se espera que após um longo período de contenção haja um ciclo equivalente de expansão, como uma mola que se expande após muito tempo contraída”, pondera. Considera que os fatores positivos do mercado, como os baixos juros e a inflação em controle, atualmente impactados pelo desemprego e pela sensação de incerteza advindas da pandemia, devem permanecer no momento da retomada integral da atividade social e econômica. “Isso nos traz uma perspectiva de expansão futura do mercado de construção civil e imobiliário. Com certeza seremos um dos carros-chefes do desenvolvimento econômico pós-pandemia.”

Momento é de buscar protagonismo


O presidente do Fórum de Infraestrutura das Entidades de Engenharia do RS e vice-presidente do Sicepot-RS, Eng. Cylon Rosa Neto, cita as mudanças no mercado e das relações de trabalho advindas do momento. “Achamos caminhos para nos reinventarmos e repensarmos nossa atuação. Conseguimos ver que muitos procedimentos que adotávamos podem ser melhorados com ferramentas de tecnologia de informação e que podemos otimizar nossas funções e nos aproximarmos, sem a necessidade de grandes deslocamentos, e com menores custos. Achamos outros caminhos de interação que vieram pra ficar. ”


Eng. Cylon Rosa Neto

O Engenheiro, que também é vice-presidente do Sicepot, considera que setor da Engenharia é um dos propulsores da retomada econômica, mas é necessário investimento em infraestrutura e mecanismos de fomento ao investimento no setor de construção civil.


Porém, vê gravidade na queda de investimentos nos setores de tecnologia, produção e Engenharia. “Nós, Engenheiros, trabalhamos com investimentos, seja na área industrial, de infraestrutura ou na construção civil. Toda a roda da economia depende da engenharia, mas para o setor andar tem que ter investimentos. Se não tivermos produção na indústria, se o poder público não investir em infraestrutura, se construção civil não estiver aquecida, teremos dificuldades na retomada”, considera.


Reflete que, para além das dificuldades impressas pela pandemia, o cenário pode ser importante para retomar o protagonismo da Engenharia na economia e no desenvolvimento sustentável do País, e cita como pauta as contratações simplificadas no setor público de obras e serviços técnicos. “O poder público tem se utilizado de um mecanismo espúrio de contratação, que é o pregão eletrônico, que não leva em consideração a qualificação dos profissionais e empresas. Nós temos que aproveitar essa oportunidade para mostrar que a contratação de serviços da área tecnológica como um todo deve primar pela qualificação técnica e exigência de capacitação, não pelo menor preço, sim pela melhor relação custo x benefício.


O Engenheiro avalia ser necessária a capacidade de articulação institucional do setor. “Não se faz nenhuma ação produtiva dentro da sociedade que não tenha a Engenharia e a tecnologia envolvidas. Quem agrega valor na economia é a Engenharia e temos que assumir nosso papel de protagonismo dentro da sociedade.”

Coronavírus coloca luz em desafios para a Engenharia


Entidade que tem se mostrado bastante atuante nas ações que contribuem ao combate da pandemia, o Instituto de Engenharia, sediado em São Paulo, realizou, em campanha com associados, a fabricação de 10 mil máscaras (modelo face shield) cedidas ao Hospital Universitário da USP (HU), além da doação de cestas básicas às comunidades carentes da região onde fica a entidade.


Para o presidente do IE, Eng. Eduardo Lafraia, este é o momento de agir com cunho social, mas com o olhar no futuro. “Não estamos e nem podemos esquecer do futuro, pois isso vai passar, mas acredito que precisamos ter nessa retomada bons projetos de Engenharia preparados, com mais velocidade e bem estruturados para conseguirmos fazer mais com menos”, afirma.


Eng. Eduardo Lafraia

Lafraia considera que a pandemia escancarou os graves problemas de desigualdade social existentes no Brasil, com as populações mais carentes sendo as mais atingidas pela doença. “A partir desta situação ficou explícito que o combate à pobreza precisa ganhar prioridade em nosso País. E consideramos que o saneamento é um dos caminhos. ”


Neste sentido, o IE lançou o caderno “Diretrizes para Universalização do Saneamento no Brasil”. Realizado pela Divisão Técnica de Engenharia Sanitária, Recursos Hídricos e Biotecnologia do Instituto de Engenharia, que reúne entrevistas com mais de 20 especialistas do setor. “Entendemos que este estudo seja de suma importância para o País e chegou em um momento crucial, no qual a disseminação da Covid-19 seria minimizada sensivelmente com medidas de saneamento ambiental e políticas públicas voltadas à prevenção da contaminação.” E concluiu: “Com bons projetos, investimento de 10 bilhões de dólares anuais em áreas mais vulneráveis, resultariam em uma redução de mais de 40 bilhões de dólares gasto na Saúde.”


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