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Precisamos falar sobre mudanças climáticas e aquecimento global

Atualizado: Out 1

MATÉRIA DE CAPA

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3º episódio do Conselho em Podcast, “Mudanças climáticas e o aquecimento global”, entrevistamos o geógrafo e climatologista Francisco Eliseu Aquino; o geólogo e primeiro glaciologista brasileiro Jeferson Simões; e a Meteorologista Estael Sias.


Esta matéria é originária do podcast Aquecimento Global e Mudanças Climáticas que pode ser acessado no Spotify.

Por Jô Santucci – Colaboração estagiária Fernanda Polo, Equipe de Comunicação CREA-RS

Em junho deste ano, um ciclone-bomba atingiu a Região Sul do Brasil, causando grandes estragos nos Estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

Em seguida, em julho, uma enchente de proporções históricas atingiu o RS. Os valores limites foram os mais altos desde o século passado. Isso ocorreu após um período de uma das piores secas da história do Estado. Ainda em julho, uma nuvem de gafanhotos se deslocou da Argentina para o Brasil.


Setembro, temos assistido a imagens terríveis das queimadas da Amazônia e do Pantanal, sendo que, deste último, já se perdeu 19% de toda a sua área para o fogo, com 27.660 focos de calor. Especialistas tentam salvar diversas espécies, mas muitos animais não tiveram tempo para fugir.


Calor intenso em algumas regiões e inverno rigoroso em outras, biomas queimados, secas, chuvas torrenciais, desmatamento, ciclone-bomba, gafanhotos. Mas, afinal, o que está acontecendo com o planeta? Estes eventos extremos são influenciados pelo aquecimento global? São eventos naturais ou ações humanas?

Foto ilustrativa/Pixabay

De acordo com o Inpe, no Brasil, assim como na América do Sul, a quase totalidade das queimadas é causada pelo homem, por razões muito variadas. “Com mais de 300 mil queimadas e nuvens de fumaça cobrindo milhões de quilômetros detectadas anualmente através de satélites, o País ocupa o quinto lugar entre os países poluidores, e também devastando anualmente em média cerca de 15 mil km²/ano de florestas naturais”, aponta comunicado no site do Inpe.


Para o Geógrafo Francisco Eliseu Aquino, diretor do Centro Polar e Climático e coordenador da Divisão de Climatologia Polar e Subtropical da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, é preciso entender o que causa o aquecimento global.


Também coordenador do Laboratório de Climatologia do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o professor explica que o aumento da temperatura média do nosso planeta vem impactando, há décadas, as geleiras tropicais. “Elas vêm derretendo, contribuindo para o aumento do nível dos mares”, detalha.


Dessa forma ocorre uma mudança na biodiversidade e na circulação oceânica, consequentemente, alterando o padrão dos campos de pressão e a densidade da atmosfera do planeta, além de aumentar os fenômenos meteorológicos mais intensos e frequentes.


Segundo ele, a população do mundo todo sofre o impacto, independentemente de sua região. “Por exemplo, o Rio Grande do Sul, mesmo que não fosse responsável pela atual mudança climática, sofreria o impacto, porque a fluidez dos oceanos e da atmosfera busca um equilíbrio de energia no planeta”, aponta.


Explica ainda, que um dos maiores desafios para quem estuda as mudanças climáticas é conseguir atribuir diretamente um evento meteorológico extremo à mudança do clima.


“Nossos estudos mostram que estes ciclones-bombas vêm se mantendo nas últimas décadas com a mesma quantidade de eventos, em média dois por ano. Em contrapartida, vários outros trabalhos mostram que, em decorrência do aquecimento global e da reorganização da situação atmosférica no Hemisfério Sul, os ciclones extratropicais estão diminuindo em números, mas aumentando de intensidade”, detalha.


Aberto para a consulta pública, o Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), disponibiliza dados sobre as queimadas, gerados a partir de satélites que fornecem imagens ao Inpe. No entanto, o satélite AQUA_M-T, usado como referência pelo órgão, "ultrapassou em muito sua vida útil", de acordo com informação no site do Programa, publicada pelo próprio Inpe.


Quais satélites são usados e onde são recebidas e processadas as imagens?


São utilizados todos os nove satélites que possuem sensores óticos operando na faixa termal-média de 4um e que o Inpe consegue receber. No presente (setembro/2019), são processadas operacionalmente, na Divisão de Geração de Imagens (DGI) e na Divisão de Satélites e Sistemas Ambientais (DSA) as imagens dos satélites polares, as AVHRR/3 dos NOAA-18, NOAA-19 e METOP-B, as MODIS dos NASA TERRA e AQUA e as VIIRS do NPP-Suomi e NOAA-20 e, as imagens dos satélites geoestacionários, GOES-16 e MSG-3.


Cada satélite de órbita polar produz, pelo menos, dois conjuntos de imagens por dia e os geoestacioários geram quatro imagens por hora, sendo que, no total, o Inpe processa automaticamente mais de 200 imagens por dia, especificamente para detectar focos de queima da vegetação. Espera-se ainda incluir a recepção das imagens dos satélites chineses polares Fenyun. As recepções são feitas nas estações de Cachoeira Paulista (SP), próximo à divisa com o RJ, e de Cuiabá (MT).


Vários satélites utilizados no passado não estão mais em operação, como o NOAA-9 que foi o primeiro a fornecer focos para o Inpe no período 1984-1998.

Desmatamento


Diversos outros fatores contribuem para o aquecimento global. O desmatamento da Amazônia, por exemplo, pode ter consequência direta em outras regiões, como o Rio Grande do Sul. Além de afetar a biodiversidade, a própria Floresta Amazônica, impõe mudanças no sistema climático, na umidade do solo, interfere na perda de biodiversidade na Amazônia e, por consequência, diminui a sua influência ou poder de enviar umidade para o resto da América do Sul ou para o sul da América do Sul.

“Parte da estiagem que vivemos em 2019/2020, especialmente no período quente, foi provocada pela falta de umidade da Amazônia, fator que contribuiu para a precipitação na Região Sul do Brasil”, ressalta.


Greenpeace

Greenpeace registra imagens de focos ilegais na Amazônia.

TerraBrasillis

Mapas de Monitoramento ambiental.


Economia Verde


Para ele, estes cuidados serão cada vez mais importantes nas próximas décadas, para que o Brasil possa seguir como líder internacional na produção de alimentos.

Foto ilustrativa/Fotolia

Para o climatologista Aquino, é preciso achatar a curva do aquecimento global para evitar eventos extremos e, além disso, salvar o planeta.

Um estudo publicado em agosto deste ano aponta que a sensibilidade climática está entre um grau e meio e 4,3°C. “Há bastante tempo nós sabemos que se ultrapassarmos um grau e meio ou 2°C, as mudanças climáticas e seus efeitos serão muito mais intensas do que as das últimas duas ou três décadas. O sistema avança rapidamente para este caminho . Portanto, para evitar estes 2°C a mais até 2030/2050, é necessário diminuir as emissões de gases de efeito estufa e investir em engenharia, ciência e tecnologia”, recomenda.

“Mais do que nunca nós, das geociências, da climatologia, geografia e das engenharias, estamos sendo convocados para contribuir com ideias, tecnologia e conhecimento no achatamento dessa curva”, aponta.

De acordo com o climatologista, as perspectivas para o nosso planeta não são boas. O que se espera é a manutenção do aquecimento, das mudanças climáticas e dos eventos extremos. Daí a importância de ações para mudar o rumo dos acontecimentos.

“Atualmente nós entendemos que temos caminhos importantes para evitar os eventos extremos e a ampliação do aquecimento global. Ciência e engenharias para reduzirmos a emissão, novas tecnologias, melhoria e eficiência no transporte público urbano, o uso de energias renováveis, arquitetura adequada, com maior e melhor ventilação e iluminação, estes dois inclusive, intimamente associados à proteção da Covid-19; carros e eletrodomésticos mais eficientes e consumo mais eficiente”, sugere.


Efeito estufa intensificado

Pioneiro em Glaciologia no Brasil, o Geólogo Jefferson Cardia Simões, que também é professor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, explica o papel e os claros sinais do efeito estufa no aquecimento. “Se verificarmos a temperatura média medida nos últimos 150 anos, vamos observar um aumento significativo, com eventos extremos em períodos curtos de tempo”, aponta.

Também cientista e explorador polar, Jefferson Simões é membro da Academia Brasileira de Ciências e professor colaborador do Climate Change Institute, University of Maine, EUA.

O especialista ressalta que o efeito estufa é um processo natural que permite que a temperatura da Terra esteja confortável em torno de 15°C positivos. Se não existisse o efeito estufa, a temperatura desse planeta, considerando a distância terra-sol, seria em torno de 16°C negativos, ou seja, uma diferença de mais de 30°C. “O problema é que estamos intensificando-o, jogando mais gases estufas na atmosfera, como dióxido de carbono (CO2), metano (CH4) e óxido nitroso (N2O), fazendo com que aumente a absorção dos raios infravermelho e aquecendo mais a temperatura da parte inferior da atmosfera”, explica.

Reajuste às variações térmicas

Esclarece, assim, que a variabilidade do clima sempre ocorreu. “Mas nos últimos 20 anos, estamos observando uma intensificação de eventos mais extremos. Verões com picos de calor, invernos com maior variabilidade de calor e frio. Portanto, o que tipificávamos como clima normal está mudando”, alerta.


Este processo aponta que o aquecimento global e os eventos extremos estão interligados. “Os arquivos das temperaturas médias medidas pelas estações meteorológicas nos últimos 160 anos mostram que a temperatura está se aproximando de um aumento de 1°C. Mais importante em termos de perspectivas em longo tempo, nos registros paleoclimáticos, que apontam as condições ambientais de maneira indireta, indicam que aquecimento similar só ocorreu há 126 mil anos, no penúltimo período interglacial. Além disso, fica cada vez mais claro o aumento dos eventos extremos”, aponta.


Testemunho de sondagem de gelo


Para entender o que vai acontecer nas próximas décadas na variabilidade climática só pesquisando o que aconteceu nos últimos séculos. Sem isto, só especulação e não um estudo científico. O glaciologista Simões trabalha diretamente com o estudo do gelo nas regiões polares. Com 23 expedições na Antártica e duas no Ártico, coletando testemunhos de gelo, o professor explica que a cobertura de gelo antártico tem papel fundamental no sistema ambiental.

Os glaciologistas Jefferson Simões e Francisco Ferron coletando testemunho de gelo na Antártica

(Foto Núcleo de Pesquisa Antárticas | Climáticas da UFRGS)


“Ela é um dos principais controladores do sistema climático terrestre e do nível dos mares, além de arquivar nas suas camadas a evolução e eventos remarcáveis da atmosfera do planeta, bem como o registro da ação antrópica nas últimas décadas”, ensina.


“O trabalho envolve o treinamento específico de atividades dos profissionais do Sistema Confea/Crea na exploração científica e na investigação de massa de gelo, quer na sua dinâmica, morfologia, recuperação através de perfuração do gelo da neve para dados paleoclimáticos e também na química climática ao logo do passado”, ressalta.


Atualmente, esta técnica, conhecida como “testemunho de sondagem de gelo”, é a mais avançada na área da paleoclimatologia, porque a neve preserva as características da química da atmosfera e já foram obtidos gelo de 800 mil anos atrás.

Como o aquecimento global impacta os polos do globo?


O glaciologista explica que as mudanças climáticas e o impacto delas nas regiões polares ao longo dos últimos 30 anos ficarão muito mais claras, com um aumento maior da temperatura nestas regiões e, consequentemente, também derretimento do gelo e migração de animais. “Estamos vendo o aumento da temperatura média das duas regiões polares, mas ela é intensificada, na verdade, na periferia dessas regiões, onde temos a passagem do estado sólido – neve e gelo – para o líquido, que é o oceano aberto”, detalha.

Foto ilustrativa/Pixabay

Este processo intensifica as mudanças ambientais. “Principalmente, quando o gelo (azul glacial) e a neve (branca) desaparecem, e surge uma cor mais escura na superfície do oceano, aumentando a transferência de energia do oceano para a atmosfera”, detalha.


Alerta sobre o aumento de 3°C da temperatura atmosférica dos últimos 50 a 60 anos na periferia das duas regiões polares. “Isto é muito mais do que a média mundial, causando o derretimento da massa de gelo nessas periferias”, afirma.


Especificamente sobre o Ártico, o professor Jefferson ressalta que, ao contrário da Antártica, é somente um oceano, coberto por uma fina camada de gelo e neve.


É um mar congelado com uma camada de neve por cima, com 2 a 4 metros de espessura. Esse gelo marinho tinha uma vida de 20 a 30 anos enquanto circulava no Oceano Ártico. No entanto, hoje ele não sobrevive a todo esse período. “Não está só mais fino, mas também está sofrendo mais rápida redução no período de verão, que normalmente oscilava entre 7 e 14 milhões de quilômetros quadrados entre verão e inverno. Agora está cada vez menor. Em 2012, a área coberta de mar congelado no Ártico reduziu para menos de 3,5 milhões de quilômetros quadrados”, lamenta.


Consequências geopolíticas

Além das consequências climáticas, o aquecimento global traz alterações geopolíticas, que também envolvem o Ártico. De acordo com o professor Jefferson, um dos sonhos das grandes descobertas era encontrar um caminho curto entre a Europa e a China. “Esta realidade está cada vez mais próxima, com a redução da extensão do gelo marinho do Ártico, facilitando a entrada de países que não tinham interesse naquelas regiões, como a própria China e a Índia. Vários países já mostraram preocupação, como a Rússia, os Estados Unidos, o Canadá, que já pensam em reforçar a segurança militar naquela região. Além do transporte, existe um grande potencial para a exploração de recursos de óleo e gás”, lembrou.

Desinformação e negação das mudanças climáticas


Para o glaciologista, um dos maiores desafios para os pesquisadores do clima é a instabilidade do financiamento da pesquisa. Além disso, segundo o professor Jefferson, a área de mudança do clima sofreu ao longo dos últimos 30 anos uma campanha de desinformação. “Grupos conservadores ligados a empresas do setor de óleo e gás norte-americanas, e também europeias, negam todo o papel da humanidade nas mudanças do clima, com o claro objetivo de confundir a sociedade sobre o funcionamento da ciência do clima. Há mais de 30 anos os cenários apontados pela comunidade científica estão sendo evidenciados pelas observações. Os trabalhos internacionais no Ártico e na Antártica atestam estes dados, que mostram o quanto estamos acelerando este processo de mudanças”, exalta.

Consciência Ambiental

Para o professor Simões, é preciso que haja uma mudança profunda nos meios de produção, de exploração e de vida da nossa sociedade. “A economia mundial se baseia no mito de que o planeta finito produz recursos infinitos. É necessário encontrar outras maneiras na exploração de nossos recursos naturais e na distribuição destes recursos para a população mundial. Ou achar outro planeta”, defende.

O papel da meteorologia nas mudanças climáticas


Para a Meteorologista Estael Sias, da MetSul Meteorologia, mestre na área de tempestades, que se percebe é que os eventos extremos se tornaram mais frequentes a partir da década de 1990.

Foto ilustrativa/Freepik

Para ela, relacionar diretamente com o aquecimento global é algo complexo. “Temos mais de 100 anos de medição de temperatura, de ventos, de pressão atmosférica, de umidade relativa do ar, enfim, todas as variáveis. É fundamental este avanço científico para que tenhamos o conhecimento pleno do tamanho deste aquecimento que o planeta tem enfrentado nas últimas décadas”, avalia.

Previsão contribui para ações preventivas

A Meteorologista explica ainda a relação entre a nuvem de gafanhotos, surgida no final de junho na Argentina, e o aquecimento global, e destaca o papel dos profissionais da área na previsão destes acontecimentos.


Em 20 anos de previsão do tempo, Estael ressalta que foi a primeira vez que uma nuvem de gafanhoto esteve correlacionada à previsão do tempo, mas que em outros países esta questão é bem comum, com o estabelecimento de protocolos. “Era um cenário de desequilíbrio, porque a temperatura estava mais alta, o que também afetou o comportamento dos animais e dos insetos. O que eu como Meteorologista pude avaliar é justamente se a condição meteorológica estava ou não favorável para a proliferação dessa nuvem. Da nossa parte, podemos contribuir com a previsão para possibilitar uma ação preventiva. O próprio Ministério da Agricultura, a Secretaria Estadual da Agricultura, a Emater e todos os institutos relacionados a todo o trabalho de monitoramento dessa situação de risco para o setor agrícola, também acompanham a previsão do tempo e a condição meteorológica, porque ambas influenciaram no comportamento e no deslocamento da nuvem de gafanhotos”, esclarece.

Meteorologia: prevenção para salvar vidas


Uma das principais missões do Meteorologista é a antecipação e o alerta de fenômenos extremos. A comunicação também tem um papel fundamental na segurança da população. No entanto, ainda falta uma cultura de prevenção e preparação para eventos extremos no Brasil como existe nos Estados Unidos, por exemplo.

Além disso, de acordo com ela, as pessoas não estão acostumadas a pensar de uma forma preventiva. “O alerta meteorológico, por exemplo, pode ser emitido entre 15 e 20 minutos de antecedência, parece curto, mas se a população tiver um treinamento, conhecimento das ações necessárias, a partir do momento que chega o alerta, como qual a autoridade que deve ser acionada, quais os passos a serem dados, uma rede de apoio organizada, o tempo será suficiente para salvar vidas”, defende.

Cultura da prevenção


De acordo com Estael no RS ainda não existe este hábito, diferentemente do que acontece em São Paulo e Santa Catarina, onde a Defesa Civil de ambos desenvolveu esta cultura, deixando os Estados mais preparados. No caso de SC, o marco foi o Furacão Catarina, em 2004.

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“O que faz a diferença no trabalho do meteorologista é a responsabilidade, de ter conhecimento, estudar, de conhecer a região e os fenômenos que atuam, mas a missão principal é alertar sobre eventos extremos. Para isto é necessária uma comunicação muito clara, obtendo uma graduação de gravidade de cada evento. O meteorologista precisa traduzir em palavras para que a população que não tenha essa cultura de prevenção, entenda que está correndo risco. Quando é normal, eu vou falar sobre vento e chuva. Mas quando é um ciclone-bomba, eu tenho que deixar claro os riscos que este evento pode trazer para a população, quantos dias, a intensidade, se tem possibilidade de alagamentos ou vendaval, proteção de raios, quedas de árvores. Nos eventos extremos, o alerta tem que ser contundente, com palavras fortes. A população precisa estar preparada para receber as informações com tranquilidade e saber exatamente o que fazer. Não adianta eu ter os melhores recursos e meteorologistas, se eu não tenho a capacidade de comunicar de forma clara. A informação não vai chegar a quem precisa e a pessoa, se não tiver sido treinada, não vai conseguir se proteger e correrá um grande risco”, defende.


Atualmente, o prazo de antecipação de eventos é cada vez maior. Isso é possível pela experiência, repetição de fenômenos e observação de características de cada região. No entanto, ainda é preciso refinar técnicas e ferramentas para detalhar eventos com maior precisão, a ponto de conseguir especificar hora e local.


Mas, segundo Estael, dependendo do tipo de fenômeno, já é possível alertar a população. “No caso do ciclone-bomba, que teve grande abrangência em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, a MetSul emitiu alerta dois ou três dias antes. Foi a primeira a falar em ciclone-bomba e conseguiu informar a população. Quando ocorreu o segundo, que de fato potencializou a atuação do primeiro, a gente conseguiu emitir o alerta uma semana antes, comunicando o risco de cheias nos principais rios do Rio Grande do Sul”, detalha.


Depois do vendaval do dia 29 de janeiro de 2016 em Porto Alegre, aumentou o número de pessoas que entram em pânico todas as vezes que se fala em ventos. Mas é preciso que a população tenha a informação com o alerta até mesmo para que a sociedade se proteja e se previna, pondera a Estael Sias.


“É o nosso papel como meteorologista alertar a população de determinada cidade de que vai ter uma tempestade forte, para a que o município possa se organizar com ações preventivas, limpando as ruas, as bocas de lobo, e assim minimizar possíveis alagamentos. Se o alerta for de raios, as pessoas devem evitar ficar ao ar livre, embaixo de árvores, jogar um futebol debaixo de uma tempestade, pontes que sempre sofrem alagamentos podem ser interditadas, etc. São ações que fazem a diferença. Quanto mais a população tiver a compreensão de fenômenos, de como agir, mais necessária será a informação, tanto para diminuir os danos materiais, como para evitar riscos à vida humanas.”


Estael cita um exemplo de evento extremo que foi antecipado pelos profissionais da Meteorologia: a enchente que atingiu o município de Porto Alegre em 2015. Na ocasião, as comportas do Cais Mauá tiveram de ser fechadas, numa tentativa de impedir a inundação.

Alertas de previsão do tempo


“Havia um El Niño em desenvolvimento que se configurou ao longo de 2015. Em junho deste ano, apresentamos para a Prefeitura de Porto Alegre e todas as secretarias, inclusive para a Defesa Civil, um prognóstico alertando os gestores da capital para que se organizassem porque seria um ano de recorrentes situações de chuva forte e volumosa, com muitos alagamentos na capital e cidades adjacentes”, contou.


Além disso, complementa a Meteorologista, foi feito um prognóstico ousado, relembrando as supercheias de 1941 e de 1967 e explicando que, provavelmente no mês de outubro, se pensaria na possibilidade de fechar as comportas do Guaíba. O que de fato se confirmou no mês de outubro de 2015. A partir desta informação foram deflagradas várias ações de prevenção, nem sempre percebidas pela população, como a organização das bombas, limpeza da boca de lobo, organização da cidade, com maior fluxo de informações, definindo a atuação de várias secretarias diante daquele episódio. “Este é um exemplo de ação preventiva, que envolveu vários profissionais, não só da meteorologia, colocada em prática durante muitos meses, pois estávamos em junho, mas prospectando a segurança da população para outubro”, afirmou.


A agricultura também sofre com as mudanças climáticas e a Meteorologia é uma grande aliada no enfrentamento dos eventos extremos. “O setor agrícola realmente vai ter que se preparar melhor, porque os extremos de secas vão exigir maior investimento em sistemas de irrigação, por exemplo, assim como para encontrar soluções para o enfrentamento de enchentes ou chuvas excessivas em um curto período de tempo”.


Estael destaca a contribuição da previsão do tempo no planejamento do agricultor. A Meteorologia consegue atualmente antecipar, já na fase anterior ao plantio, os desafios que os agricultores irão enfrentar. “A partir destas informações os produtores conseguem planejar a escolha do ciclo da semente, saber qual é o momento que ele terá um cuidado maior com a chuva ou com o frio, preocupação com a irrigação, excesso de umidade, que também pode atrapalhar a plantação, como o trigo no inverno”, detalha.


Salienta que a meteorologia é uma forte aliada no campo, mesmo em um cenário de mudança. “O trabalho em conjunto com o engenheiro agrônomo é fundamental na lavoura e tem obtido sucesso”, afirmou.

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