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Créditos de Biodiversidade como Instrumento Econômico para a Preservação Ambiental

Débora Luana Pasa - Drª. Engenheira Florestal. CREA RS 212.548

INTRODUÇÃO

 

Os créditos de biodiversidade são instrumentos econômicos voltados à conservação e recuperação de ecossistemas naturais, baseados na geração de benefícios mensuráveis para a biodiversidade. De forma semelhante aos créditos de carbono, esses mecanismos buscam atribuir valor econômico à manutenção, restauração e melhoria de habitats naturais e na manutenção dos serviços ecossistêmicos. 

O tema ganhou destaque internacional com o Marco Global da Biodiversidade de Kunming-Montreal, aprovado na 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica (COP-15), em 2022. O acordo prevê, entre suas metas, a mobilização de recursos financeiros para a conservação da biodiversidade por meio de instrumentos como pagamentos por serviços ecossistêmicos, títulos verdes e créditos ambientais (Marsola, 2025). 

Embora apresentem semelhanças com os créditos de carbono, existem diferenças importantes entre esses instrumentos. Os créditos de carbono são fungíveis, representam a redução ou remoção de uma tonelada de dióxido de carbono equivalente (tCO₂e) e são utilizados para compensar emissões de gases de efeito estufa. Já os créditos de biodiversidade estão associados a ecossistemas específicos, possuem mensuração mais complexa e buscam atrair financiamento privado para a conservação da natureza e a geração de impactos positivos nos ecossistemas. 

Em razão de sua natureza econômica, os créditos de biodiversidade são frequentemente considerados instrumentos complementares aos créditos de carbono, podendo agregar valor ambiental aos projetos e ampliar sua viabilidade financeira, aumentando a atratividade dos projetos e reduzindo o tempo de retorno dos investimentos. 

Nesse contexto, os créditos de biodiversidade representam uma forma de valorização dos serviços ecossistêmicos, voltada à geração de benefícios positivos para a natureza. Eles podem complementar projetos de carbono ou ser aplicados em áreas onde esses projetos não são viáveis, como pequenas propriedades, regiões com baixa taxa de desmatamento ou com baixo estoque de carbono. Assim, surgem como uma alternativa para fortalecer a conservação de ecossistemas naturais e ampliar as oportunidades de financiamento para a proteção da biodiversidade. 

PADRÕES DE CERTIFICAÇÃO E METODOLOGIAS PARA QUANTIFICAÇÃO DE CRÉDITOS DE BIODIVERSIDADE

Os padrões de certificação de créditos de biodiversidade ainda estão em processo de consolidação e em fase de desenvolvimento, com diversas iniciativas buscando estruturar métricas e metodologias capazes de mensurar ganhos ecológicos de forma confiável, comparável e transparente. No entanto, de modo geral, seguem os princípios baseados em integridade ambiental, monitoramento contínuo, auditoria por terceira parte independente e rastreabilidade dos créditos gerados (Figura 1).  

Na América do Sul, algumas metodologias vêm se destacando na estruturação desse mercado. Um exemplo é a metodologia Savimbo, onde um crédito de biodiversidade corresponde à conservação de um hectare de vegetação nativa por um período de 30 dias. Essa abordagem utiliza espécies indicadoras para avaliar a qualidade ambiental da área e verificar se o habitat tem condições adequadas para a manutenção da biodiversidade. 

Outra iniciativa é a metodologia TERRASOS. Nesse caso, um crédito equivale à conservação ou restauração de 10 m² de área por um período mínimo de 20 anos, podendo chegar a até 50 anos de compromisso de conservação. Essa metodologia prioriza ecossistemas ameaçados, buscando direcionar investimentos para áreas com maior relevância ecológica e necessidade de proteção. 

Já a metodologia ERA (Ecological Reserve Assets) propõe que um crédito corresponde à conservação ou restauração de um hectare de área durante um ano.  A metodologia utiliza o conceito de espécies guarda-chuva, ou seja, espécies cuja conservação contribui para a proteção de diversos outros organismos e de todo o ecossistema associado. 

É importante destacar que não existe uma metodologia única considerada correta ou incorreta para a geração de créditos de biodiversidade. Cada abordagem foi desenvolvida considerando diferentes contextos ecológicos, objetivos de conservação e necessidades de mercado.  

Figura 1 - Passo a passo genérico para um projeto de créditos de biodiversidade.

Figura 1 - Passo a passo genérico para um projeto de créditos de biodiversidade.

Fonte: Adaptado de Marques, O. (2025) 

DEMANDA POR CRÉDITOS DE BIODIVERSIDADE

O mercado de créditos de biodiversidade ainda está em fase inicial de desenvolvimento, mas já apresenta interesse crescente do setor privado. Estima-se que, até 2025, o volume financeiro movimentado globalmente foi relativamente baixo, com transações acumuladas entre aproximadamente US$ 5,6 milhões e US$ 10 milhões, refletindo o caráter ainda experimental desse mercado (Carbon Pulse, 2025). No entanto, com avanços na governança e na estruturação desse mecanismo, a demanda por créditos voluntários de biodiversidade poderá atingir cerca de US$ 2 bilhões até 2030 e US$ 69 bilhões até 2050 (World Economic Forum, 2023). Atualmente, os valores negociados ainda são bastante variáveis, mas algumas transações iniciais indicam preços na faixa de US$ 20 a US$ 30 por crédito, dependendo das características do projeto e da metodologia utilizada. Informações sobre a evolução desses preços vêm sendo acompanhadas por relatórios especializados, como o OPIS Biodiversity Market Report, publicado pela Dow Jones & Company, por meio do serviço Oil Price Information Service (OPIS), que reúne dados sobre projetos, tendências de mercado e referências de preços observadas em negociações internacionais (Dow Jones & Company, 2024).

Diferentemente de alguns mecanismos ambientais existentes, a compra de créditos de biodiversidade, atualmente, não ocorre predominantemente por exigência legal ou compensação obrigatória. Trata-se, na maior parte dos casos, de um mercado voluntário, no qual as empresas adquirem créditos motivadas por diferentes estratégias corporativas. Entre os principais fatores que impulsionam essa demanda estão o fortalecimento de políticas de ESG (Environmental, Social and Governance), a busca por melhorar a reputação ambiental da empresa e a intenção de comunicar ao mercado e à sociedade uma contribuição positiva para a conservação da natureza. 

Além do aspecto reputacional, muitas empresas investem em créditos de biodiversidade em regiões onde possuem operações ou cadeias produtivas, buscando gerar impactos positivos nos territórios onde atuam. Essa estratégia conecta os investimentos ambientais às áreas de interesse do negócio, contribuindo para a conservação de ecossistemas, o desenvolvimento socioambiental local e a redução de riscos ambientais, tornando os créditos de biodiversidade também um instrumento estratégico para promover a sustentabilidade. 

CONSIDERAÇÕES FINAIS  

O mercado de créditos de biodiversidade ainda se encontra em estágio inicial de desenvolvimento, mas apresenta grande potencial para se consolidar como um importante instrumento de financiamento da conservação ambiental. A crescente preocupação global com a perda de biodiversidade e a necessidade de mobilização de recursos privados para proteção da natureza tendem a impulsionar a expansão desse mercado nos próximos anos. 

Nesse contexto, surgem diversas oportunidades técnicas e econômicas, especialmente relacionadas ao desenvolvimento de metodologias de mensuração da biodiversidade, à capacitação de profissionais especializados e à criação de novos modelos de financiamento para a conservação e restauração ecológica. 

 No Brasil, a elevada diversidade de biomas e ecossistemas representa um cenário promissor para a implementação desses mecanismos, podendo ampliar as alternativas de geração de renda para proprietários rurais e fortalecer estratégias de conservação da biodiversidade aliadas ao desenvolvimento sustentável. 

 

Palavras-chave: Créditos de biodiversidade; conservação; serviços ecossistêmicos; financiamento ambiental; mercado voluntário; restauração ecológica. 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

MARSOLA, Rafaela Martins. Créditos de Biodiversidade como instrumento econômico de preservação: Os desafios atrelados à sua implementação e as expectativas para a COP-30. Revista ESASP - Revista Científica Virtual da Escola Superior de Advocacia da OAB/SP, [S. l.], v. 1, n. 50, p. 123–134, 2025. Disponível em: https://revista.esaoabsp.com/index.php/esa/article/view/19.  

 

CARBON PULSE. Global biodiversity credit sales reach early market milestones. Carbon Pulse, 2025. Disponível em: https://carbon-pulse.com.  

 

WORLD ECONOMIC FORUM. High-level governance and integrity principles for emerging biodiversity credit markets. Geneva: World Economic Forum, 2023. Disponível em: https://www.weforum.org.  

 

MARQUES, Olivia. Um panorama sobre créditos de biodiversidade: metodologias e mercado. LinkedIn, 24 ago. 2025 

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