Olivicultura no RS: um setor em ascensão

Por Luciana Patella / Jornalista

Confira o papel do Agrônomo na produção do azeite de oliva:

“Comi azeitonas saborosas que, contudo, ainda são objeto de curiosidade, mas quando a população aumentar e as terras forem divididas poderá tornar-se, para esta região, uma fonte de riqueza”

Auguste de Saint Hilaire, em 1820 no livro Viagem ao Rio Grande do Sul (fonte: www.agricultura.rs.gov.br/pro-oliva, via Eng. Florestal Antonio Carlos Leite de Borba - Extensionista Rural da Emater)

Olivicultura

Como vemos pela citação acima, o cultivo de oliveiras no Brasil tem uma história longa, ainda assim apenas há algumas décadas a produção nacional está tomando fôlego, com o Rio Grande do Sul na liderança, responsável por 70% da produção brasileira.

Segundo maior importador do produto no mundo, o Brasil ainda traz de fora do país quase 100% do que é consumido, de acordo com o International Olive Council. O volume do óleo produzido no RS, porém, cresceu mais de 700%, nos últimos cinco anos, com foco na qualidade dos azeites que têm recebido prêmios em concursos internacionais.

A colheita e o processamento mais imediato são grandes diferenciais aos nossos azeites, que logo já estão disponíveis ao público. Além disso, a colheita das azeitonas aqui no Sul do Brasil, e no País de forma geral, se dá no ponto de maturação ainda antes de a azeitona amadurecer completamente e mudar de cor, ou seja, ainda verdes. Isto proporciona azeites mais picantes, mais aromáticos, mais amargos, dependendo da variedade, garantindo uma melhor qualidade”, explica o Engenheiro Agrônomo Paulo Lipp João, coordenador da Câmara Setorial das Oliveiras da Secretaria da Agricultura e Pecuária do Rio Grande do Sul (Seap).

HISTÓRIA

As primeiras mudas de oliveiras chegaram ao Brasil pelas mãos dos portugueses ainda no século 16. O País teve, porém, seu cultivo proibido pela Coroa Portuguesa, assim que o reino percebeu a qualidade superior do óleo brasileiro em comparação ao de Portugal. Foi ordenada a destruição dos olivais da época, junto à proibição da produção no Brasil colônia. Tais questões históricas geraram séculos de atraso na produção no País em comparação aos vizinhos da América do Sul, como Chile, Uruguai e Peru. 

Acesse o histórico completo (https://www.agricultura.rs.gov.br/pro-oliva)

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MEMÓRIA

No Rio Grande do Sul, a oliveira foi introduzida pelos imigrantes açorianos, nos anos de 1900. “Já tivemos plantios de oliveiras no passado no Rio Grande do Sul, tanto que ainda é possível encontrar áreas remanescentes em alguns municípios do sul do Estado. Como exemplo podemos citar áreas encontradas na região de Uruguaiana e na cidade de Rio Grande”, relata o Eng. Agrônomo da Embrapa Clima Temperado, Dr. Rogério Oliveira Jorge, que atua com Olivicultura no Laboratório de Análises de Azeites.

A primeira iniciativa de retomada ocorre na década de 1940, segundo informações da Seap, mais exatamente em 1947, quando é criada a Comissão de Estudo e Fomento do Cultivo da Oliveira e Industrialização, que oferecia incentivos fiscais aos produtores. No ano seguinte, cria-se o Serviço Oleícola, na Secretaria da Agricultura. Com este trabalho de fomento e produção de mudas, realizado pelo órgão, nas décadas de 1950 e 1960, chegaram a ser distribuídas 300 mil mudas em várias regiões do Estado.

Segundo conta o Engenheiro Agrônomo Emerson Menezes, responsável técnico na Azeites Terra Pampa, de Bagé, por carência de mais pesquisas técnicas sobre questões climáticas e de solo, essa retomada não obteve sucesso. “Foram trazidas algumas espécies de clima mediterrâneo que não se adaptaram bem às nossas condições, isso ocasionou o fracasso da atividade naquela época. Ainda vemos alguns olivais em Rio Grande, Pelotas, Uruguaiana e Alegrete daquela fase, com árvores de 70, 75 anos”, explica Menezes.

O pesquisador e extensionista rural da Emater Eng. Florestal Msc. Antonio Carlos Leite de Borba destaca, também, a inicial falta de informações sobre a cultura das oliveiras. “De início não havia informações técnicas seguras sobre a implantação, manejo, colheita e industrialização”, comenta.

Retomada

Olivicultura

Já nos anos 2000, a olivicultura voltou à pauta da agricultura gaúcha quando, em 2002, foi um dos temas do 4º Fórum de Fruticultura da Metade Sul. A partir daí, em Caçapava do Sul, com aporte financeiro do Governo do Estado, se iniciou a implantação de olivais, com mudas oriundas de um viveiro espanhol, ainda sem expressivo sucesso. “A pesquisa e a assistência técnica ainda não estavam bem desenvolvidas no Brasil. E essas plantações basearam-se muito no praticado na Espanha,  sendo que temos muito mais chuva e solos que necessitavam correções, além de variedades para polinização, que lá não são necessárias, e diferenças no espaçamento entre as plantas”, explica o Engenheiro Paulo Lipp João, da Seapdr.

Os investimentos técnicos na formação de extensionistas rurais e pesquisadores da Emater e Embrapa e das universidades “para desenvolverem trabalhos de pesquisa e unidades de observação de campo dos plantios para avaliar as melhores técnicas e sistemas de produção” foram essenciais para a consolidação da cultura no Estado. Assim, em 2012, foi realizada a 1ª Abertura Oficial da Colheita da Oliva e criada a Câmara Setorial da Olivicultura.

Como estamos localizados dentro do Paralelo 30 a 45, paralelo este utilizado como referência da área cultivada com oliveiras no Hemisfério Norte, houve a retomada dos estudos com essa espécie no Rio Grande do Sul, por demanda apresentada à Embrapa pelo então ministro da Agricultura. Assim, a partir de 2006, há um retorno dos estudos com esta cultura na Embrapa Clima Temperado, o que culminou com o Zoneamento Edafoclimático da olivicultura para o Rio Grande do Sul em 2014, que identificou as áreas com possibilidade de cultivo com esta espécie no Estado”, detalha Dr. Rogério Oliveira Jorge, da Embrapa.

Olivicultura

Com o interesse dos produtores em investir nesta produção na Metade Sul do Estado, em 2015, o Governo do Estado lançou o Programa Pró-Oliva, seguido em 2017 pela criação do Instituto Brasileiro da Olivicultura (Ibraoliva). Logo após, com a Lei 15.309/2019, foi instituída a Rota das Oliveiras que incentiva o olivoturismo no RS. Em 2020, o Laboratório de Análises de Azeites, da Embrapa Clima Temperado, foi credenciado para realizar ensaios em amostras oriundas dos programas e controles oficiais do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Nas dependências do laboratório são feitas a análise e a classificação do azeite produzido no País, realizado pelo único laboratório brasileiro dedicado exclusivamente a este suporte, acreditado ao Inmetro e credenciado junto Mapa”, explica o pesquisador Dr. Rogério Oliveira Jorge.

Produção gaúcha

Produção
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Todos esses investimentos trouxeram retorno e consolidaram a cultura. Constam hoje, olivais plantados em 108 munícipios, somando mais de 6 mil hectares em cultivo, dos 10 mil no País, com 321 produtores em atuação, segundo levantamento realizado pelo Departamento de Diagnóstico e Pesquisa Agropecuária da Secretaria da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural do Estado. Ainda conforme os dados da Seapdr/RS, o Estado saiu de 58 mil litros de azeite de oliva, em 2018, para o recorde de 450 mil em 2022.

 

Um exemplo é a própria Terra Pampa, que saiu de 7 mil litros, produzidos em 2021, para 22 mil em 2022, com potencial de produção maior em todo o RS, visto que a oliveira começa a ostentar boa frutificação a partir do quarto ano. “Sabemos que as oliveiras gaúchas são muito novas ainda, então a tendência é que vá aumentando por muitos anos essas produções até chegarmos numa estabilidade. Conforme cresce a área folhear, a árvore vai produzindo mais, chegando ao décimo, 12º ano, quando ela vai estabilizar num patamar alto de frutos”, explica o Eng. Agrônomo Emerson Menezes.

Conforme o Eng. Florestal Antonio Carlos Leite de Borba, esta já é uma cadeia produtiva bem evoluída no Rio Grande. “Sem dúvida é um mercado consistente,