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Estratégias para o desenvolvimento de espécies florestais no noroeste do Rio Grande do Sul: uma abordagem ecológica e econômica

florestal

Felipe Turchetto; Adriana Maria Griebeler

Na região noroeste do Rio Grande do Sul, assim como em diversos locais do Brasil, a exploração madeireira e o desenvolvimento de atividades agropecuárias resultaram na elevada devastação e fragmentação dos ecossistemas florestais. Os efeitos prejudiciais deste tipo de ação em larga escala são bem conhecidos, comprometendo serviços ecossistêmicos vitais (DIAZ et al., 2005). Diante desse cenário, a recomposição da vegetação se torna fundamental para reduzir o quadro de degradação ambiental, promover a restauração da biodiversidade e, principalmente, garantir um meio ambiente equilibrado às futuras gerações.

Entretanto, a execução de ações de restauração florestal demanda tempo, trabalho e recursos financeiros. Nesse contexto, a atividade é vista por muitos produtores rurais como um ônus sem qualquer benefício, por não possibilitar o retorno econômico das áreas, mas também por não considerarem os ganhos indiretos e de longo prazo, como os serviços ecossistêmicos.

Uma das formas de minimizar o impacto dos altos custos da restauração florestal é a geração de renda por meio do manejo das áreas e obtenção de produtos florestais madeireiros e não-madeireiros. A legislação brasileira (Lei 12.65/2012) prevê a possibilidade de utilização e manejo sustentável das extensões de Áreas de Preservação Permanente (APPs) e de Reserva Legal (RL), mantidas as devidas diferenças entre grandes e pequenas propriedades rurais. O uso combinado de espécies arbóreas nativas e exóticas é autorizado para a recomposição da RL, desde que o plantio de espécies exóticas não ultrapasse 50% da área (BRASIL, 2012).

O desenvolvimento de sistemas florestais mistos, com múltiplos objetivos e economicamente atrativos ao produtor rural, tem representado uma alternativa promissora por ser capaz de originar plantações com viés ecológico e econômico (SILVA et al., 2019). Contudo, apesar das vantagens de se utilizar múltiplas espécies no restabelecimento de áreas alteradas, essa abordagem apresenta um risco maior, uma vez que pouco se conhece sobre o comportamento das espécies nativas em plantio no campo.

Foi nesse contexto que a equipe do Laboratório de Estatística e Manejo Florestal (Lemflor) da Universidade Federal de Santa Maria, Campus de Frederico Westphalen vem conduzindo o projeto “Estratégias para o desenvolvimento de espécies florestais no noroeste do Rio Grande do Sul”. A pesquisa tem como objetivo inicial caracterizar o comportamento de diferentes espécies nativas e exóticas em modelos de plantio misto (Figura 1), visando a definição de estratégias para o restabelecimento dos processos ecológicos, aliado ao aproveitamento econômico das áreas a serem restauradas. Além do apoio da UFSM, o projeto conta com o financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (Fapergs).

Figura 1. Modelo de plantio misto de espécies florestais nativas intercalado com espécies exóticas.

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MEMÓRIA

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Modelo de plantio

A escolha das espécies florestais nativas utilizadas no estudo levou em consideração o potencial ecológico e econômico para a região de estudo, sendo selecionadas: Araucaria angustifolia (Araucária), Cordia americana (Guajuvira), Cedrela fissilis (Cedro) e Vitex megapotamica (Tarumã). Na composição dos modelos, utilizou-se Eucalyptus dunnii e Acacia mearnsii como espécies pioneiras comerciais.

A implantação do projeto foi realizada em setembro de 2020, em área particular localizada no município de Dois Irmãos das Missões (RS). Os modelos de plantio foram combinados com duas práticas silviculturais, considerando o cultivo intensivo (maior nível de intervenção – similar ao adotado para povoamentos comerciais) e convencional (comumente utilizado em projetos de restauração florestal). A execução do projeto promove o envolvimento direto de alunos do curso de Engenharia Florestal do Campus da UFSM/FW, os quais atuam em atividades de campo que englobam desde o plantio, irrigações, adubações, controle de formigas cortadeiras, manutenções, monitoramento e avaliações de atributos de crescimento das plantas.

Até o presente momento, apesar das dificuldades enfrentadas quanto aos danos provocados por extremos climáticos, como seca e geada, resultados satisfatórios têm sido obtidos. Dentre as espécies nativas, Vitex megapotamica e sobretudo Cordia americana apresentam elevados percentuais de sobrevivência e crescimento (Figura 2). Quanto às práticas silviculturais adotadas, a silvicultura intensiva vem se destacando, permitindo maiores taxas de crescimento de todas as espécies estudadas, tanto nativas como exóticas.

Figura 2. Vistas das espécies que compõem os modelos de plantio aos 12 meses após a implantação. a) Consórcio de espécies nativas com Eucalyptus dunnii na silvicultura intensiva. b) Indivíduo de Cordia americana conduzido na silvicultura convencional.

Vistas das espécies

Ainda que sejam preliminares os resultados, o estudo tem demonstrado que é possível realizar o consórcio de espécies visando a conservação dos recursos naturais e a geração de benefícios econômicos, sendo uma alternativa promissora ao desenvolvimento sustentável de propriedades rurais. Ressalta-se também que a efetividade da iniciativa depende de rigoroso planejamento prévio, incluindo definição do arranjo espacial aliado as características das espécies a serem utilizadas, além da adoção de práticas silviculturais adequadas.

Com a continuidade do projeto, espera-se subsidiar informações técnicas e científicas sobre o desenvolvimento das espécies nativas testadas, de modo a valorizar e incentivar seu plantio e uso, subsidiando políticas públicas de bases sustentáveis e de múltiplas funções. Adicionalmente, buscar-se-á auxiliar na tomada de decisão acerca das práticas silviculturais e modelos de plantio, passíveis de utilização em projetos de restauração de áreas degradadas e/ou recomposição da Reserva Legal no Bioma Mata Atlântica.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Lei nº 12.651, de 25 de maio de 2012. Institui o novo Código Florestal. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 15 outubro. 2012. Disponível em:< http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato20112014/2012/Lei/L12651.htm#art83>. Acesso em 31 de janeiro de 2022.

 

DIAZ, S.; TILMAN, D.; FARGIONE, J. Biodiversity regulation of Ecosystem Services. In: HASSAN, R.; SCHOLES, R.; ASH, N. (Eds.). Ecosystems and Human Well-being: Current State and Trends: findings from the condition and trends working group. Retrieved from Ecosystems and Human Well-being Current State and Trends. 2005.

 

SILVA, L. N.; FREER-SMITH, P.; MADSEN, P. Production, restoration, mitigation: a new generation os plantations, v. 50, p. 153-168, 2019.

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